Queridos:
Depois da minha volta brusca para o Brasil para cuidar da minha mamãe e viver momentos importantes na minha vida e depois da partida sofrida e justa da mamãe, fiz as malas e cai no mundo de novo. Continuei o que estava previsto. Estou na Índia. Vou, "slowly, slowly" alimentando este blog.
Muitas pessoas perguntam por que eu volto a Índia e, qdo eu respondo que quero encontrar minha paz e viver minha espiritualidade, as pessoas voltam com outra pergunta: “Mas precisa ir tão longe??”. E ai eu mesmo me questiono... Já encontrei mestres no Brasil que me ensinaram muitos caminhos e os iluminaram. Acredito mesmo que fui “iniciada” ai no Brasil com um padre chamado Moacir. Ou talvez com o pe. Zeca nos meus tempos de adolescência. Mas na Índia o caminho é mais intenso porque a gente faz um “mergulho” na espiritualidade. Tudo ao redor lembra divindades, bênçãos. Sinto que eu “compartilho” o mesmo chão com o DIVINO. E cada dia é um dia de aprendizado, descobertas, sentimentos ambíguos.
Ontem fui a Haridwar (não tenho certeza que é assim que se escreve) para conhecer um Swami (homem santo, sábio, um “lord”) que tem seu acampamento montado para o Khumba Mela (tampouco sei se é assim que se escreve).. É um Festival de Homens Santos quando milhares de Sadus, Swamis, Nagababa´s , etc se reúnem em uma cidade e ficam durante dois meses convivendo, orando, banhando-se no Ganges. Milhares de Indianos vêm para esta cidade para participar, principalmente, dos banhos santos no Ganges. Este Festival realiza-se a cada 3 anos em 4 diferentes cidades da Índia. Isto quer dizer que acontece em cada cidade a cada 12 anos. Neste ano está sendo aqui pertinho do nosso ashram.
O Swami que nos recebeu – NARDANAN-JI- é muito hospitaleiro. Almoçamos no ashram e depois ele nos levou visitar vários homens santos que também estão acampados por lá. Visitamos um rapaz mto jovem e com uma cara de criança travessa que preparou um CHAI delicioso para nós. Na barraca dele eles acenderam um tipo de charuto que aspiram mto forte, soltam a fumaça para cima. Não sei que erva eles fumavam. Daí ele se juntou a nós e fomos visitar um sadu que não se senta há cinco anos. Ele apóia um lado do corpo em uma balancinha. Fomos ainda para um outro grande acampamento com várias barracas e vários homens santos. Tinha muitos NAGABABA´s. Os Nagababa´s são sadus que vivem pelados e cobrem seus corpos com cinzas pois as cinzas os protegem do frio, do calor, de doenças. É mto diferente... Alguns já não ficam pelados todo o tempo “porque os tempos mudaram”. Sadus são pessoas que deixaram suas vidas materiais para trás para viver em austeridade e encontrar a santidade. E os Swamis são sadus com mais sabedoria. Mais ou menos isso... É difícil para mim, tão ocidental, entender essas diferenças. São sutis!! Como estávamos acompanhados do swami Nardana-Ji e do outro nagababa (jovem), éramos muito bem vindos nas tendas dos outros. Ofereciam CHAI, bolachinhas (na verdade, as bolachinhas ou qualquer coisa de comer são “prasads” = alimento abençoado por eles) e ficavam sentados só sentindo a energia das santidades. Depois continuamos nossa caminhada e fomos na tenda daquele famoso sadu que levantou o braço há uns 20 anos atrás e nunca mais o abaixou. O seu braço calcificou levantado e suas unhas são tão longas que dão voltas e voltas. Ele tem uns olhos claros, ou judiados pela catarata e um aspecto de muita paz. Chamou-me para colocar cinza na minha testa e me dar cinza como “prasad”. E eu coloquei essa cinza na minha boca para purificar-me.
É indescritível o que se sente nesses lugares. A energia e a espiritualidade são fortes e EU sentia que me esquecia do meu corpo e parecia flutuar.
Desse acampamento fomos para um lugar no meio do Ganges vazio (nesta época de inverno o Ganges fica seco em muitas margens. Só mesmo no verão, quando acontecem as monções, ele mostra toda sua força e inunda cada cantinho do seu leito) e cheio de areia fofa e muito branca. Largamos o carro e caminhamos quase 1 km para chegar até a floresta onde vivem vários sadus que optaram por viver uma vida isolada, totalmente na austeridade. Precisam de quase nada para viver, alimentam-se de coisas da natureza, bebem água do Ganges. O primeiro que visitamos é lindo... Tem um ar de criança muito feliz, tem uma casa em cima da árvore, fica sentado embaixo da árvore, em posição de lótus, mexendo numas florzinhas secas, em frente a uma fogueira semi apagada (era final de tarde, ainda claro), e, de vez em quando, ri do nada. Ri gostoso, sem restrições, riso de achar que a vida é linda! Ficamos sentados ao seu redor por uns 40 minutos, só sentindo a paz daquele momento. Ele falava em híndi com o Swami que nos levou até lá. Falava pouco... Senti uma vontade imensa de me manifestar e só veio na minha cabeça o mantra GAYATRI e comecei a cantá-lo baixinho. Saímos em silêncio e fomos conhecer outro sadu. Este mora numa caverna cavada por ele mesmo na areia dura nas margens do Ganges. A caverna tem uma entrada com uns 0,70 m de diâmetro e dentro deve medir cerca de 1,50 mt de comprimento por 1 mt de altura. Tem nada lá dentro!!! Ele fica sentado do lado de fora, tem um pequeno jardim (cujas flores precisam ser trocadas sempre porque naquela areia não brota flores) e um símbolo (está tudo fotografado e anexo a esta msg) e olha para as nuvens como se as acompanhasse. Talvez sua alma esteja em uma das nuvens... Eles todos têm rostos lindos!! Este dois sadus são muito jovens.
Depois voltamos para o acampamento do Swami e ele fez um pequeno Satsang para nós. Nos explicou porque os homens fazem aqueles sacrifícios: no momento que decidem –por exemplo- levantar um braço e não abaixá-lo mais, eles concentram toda sua energia naquela ação e controlam sua energia dessa forma. Talvez eles alcancem a santidade através dessas ações... Talvez não. Ele diz que muitos são “falsos sadus” e fazem esses sadanah´s (sacrifícios) para satisfazer seu próprio ego e mostrar aos outros “olha... veja o que eu posso fazer”. Contou-nos também o que o sadu da árvore disse: “As pessoas pensam que estão fazendo alguma coisa. Prá quê? Não tem o que fazer. Está tudo ai. Tudo pronto.” Falou também da ilusão do mundo ocidental – principalmente EE.UU. e Europa – onde pensam que são felizes. Como podem ser felizes se só correm atrás de coisas materiais, de contas, de Imposto de Renda, de Seguro Saúde, Seguro do Carro, Impostos mil e acumulam tensão e mais tensão? Isso não é felicidade. E que, infelizmente, na Índia as coisas também estão começando a mudar.
Enfim... foi um dia lindo!! Muita bagagem nesta mala infinita de grande e tão leve de carregar. Quanto mais ensinamentos, mais leve ela fica!! Quanto mais leve, mais cheia de riquezas!!
NAMASTE!!
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