sábado, 25 de agosto de 2012

25/08/2012
Tive uma semana bem tranquila.  E taí uma coisa que recomendo para os Viajantes de Plantão. Tirar um intervalo de alguns dias entre uma atividade e outra para ter a oportunidade de "amadurecer" e "absorver" as experiências vividas. Parece-me que, quando vivemos experiências ricas umas atrás da outra, sem entendê-las, perdemos alguma  coisa do aprendizado. 
Fez uma semana gelada aqui em Margaret River... E úmida... Muito úmida. O tempo é bem maluquinho... Chove, desaba o mundo e, de repente, brilha um sol tímido, medroso de se molhar. rssss. Dai eu me animava, calçava o tênis, pegava a bike, colocava o capacete (obrigatório para ciclistas aqui no oeste da Austrália) e.... não passava do portão. Já voltava a chover. Devagar, para depois desabar e me mandar de volta para dentro de casa. Tá bom... não vamos brigar. Vou na locadora de filmes, na seção de "World Movies" e me confundo, me perco, me fascino, me surpreendo com a variedade de filmes de arte. Diretores de todas as nacionalidades, filmes que não passam em circuitos comerciais e, muito menos, na cidade onde moro: Santos, no estado de S.P. Lógico que os filmes Indianos têm minha preferência, já que sou tão ávida por conhecer os costumes desse País que me magnetiza.
Logo chega minha amiga de El Salvador, filha de chineses e que mora em Houston. Ela vem me encontrar e vamos ficar viajando por três semanas. Não é muito legal uma coisa destas acontecer?? Um dia, a Meyling foi para o Brasil fazer uma auditoria na Empresa onde eu trabalhava e, simplesmente, ficamos amigas.  E olha que ficar amiga de "auditor" requer desprendimento. Isto já faz uns 12 anos.  Nosso roteiro está atraente... Então aguardem relatos e fotos do Sudeste da Austrália onde crescem as famosas, enormes e respeitas anciãs KARRI TREES. É primavera e as flores selvagens estão no seu auge. Eu já tive uma amostra da leveza, do colorido, da variedade, da riqueza e da "sapequice" dessas flores. Depois voamos para Sydnei e, por que não??? Vamos viver alguns dias de grande e cosmopolita capital.  E, de lá, direto para as Grandes Barreiras de Coral, em Cairns.  É uma das 7 maravilhas naturais do mundo. E, finalmente, Nova Zelândia. Muitos já me falaram que é o Paraíso.  Como definir o Paraíso?? Como escolher UM?? Será que o Paraíso não está dentro de nós mesmos quando nosso coração está feliz?  E, então, todo lugar é seu Paraíso Particular???
Bem... só queria mandar notícias. E dizer que não "pendurei as chuteiras". Ainda temos muito pela frente.  Então... engraxem as rodinhas, apertem os cintos e limpem as lentes... dos óculos e das câmeras fotográficas. 
ALEGRIAS!!
P.S.... prá não dizer que não falei de flores, seguem fotos de um concerto com uma banda jovem, alternativa e muito vibrante que assisti nesta semana. É a DEEP BLUE ORCHESTRA.



E compartilho esta fotinho, tirada numa festa de aniversário infantil, quando a Vida (de rosa) disputa a posse da boneca Barbie que está nas mãos da linda aniversariante, Milena. E, quando ela perde a posse da boneca....... chora!! O que mais fácil uma criança sabe fazer para exigir seus direitos. Lindinhas....

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

MY WWOOFer EXPERIENCE - PARTE V


Voltei para a fazenda para mais uma semana de convivência e era como se eu estivesse voltando para casa. Coisas apaixonantes acontecem na minha vida.
O que eu quero falar aqui é sobre o conceito do WWOOF (Willing Workers on Organic Farms). Esta ideia surgiu na Inglaterra em 1971 e, inicialmente, era conhecida como “Working Weekends on Organic Farms”.  A ideia inicial era propiciar às pessoas da cidade a oportunidade de usufruir  a vida no campo, conhecer práticas agrícolas e divulgar o movimento de agricultura orgânica.  Foi um sucesso e se espalhou pelo  mundo. Existem fazendas e pequenos produtores no Brasil inscritos como anfitriões.  O WWOOFer pode ser solicitado a fazer de tudo na fazenda. Seu trabalho não estará restrito a atividades agrícolas. Poderá ajudar na construção de novos projetos, na manutenção da fazenda e até mesmo nos afazeres domésticos da casa. O anfitrião fornece casa e comida.  Aqui na Austrália o WWOOFer só precisa trabalhar meio período. O conceito é que ele tenha tempo para estudar o que lhe interessar, conviver com os outros WWOOFer´s, passear e conhecer a região onde está hospedado.  Alguns anfitriões adoram passar seus conhecimentos!  É preciso ter a mente muito aberta, ser bastante independente para não se tornar um peso para o anfitrião, aceitar mudar seus hábitos e levar consigo o que quer que seja um vício (ex.: CHOCOLATE!!!). Não se deve esperar que o anfitrião atenda todas suas vontades/necessidades.
Eu tive muita sorte com meus anfitriões e com a fazenda.  Muito linda! A natureza é rica nesta pequena cidade de Donnybrooks, no oeste da Austrália. É inverno, faz muito frio à noite, durante o dia o trabalho intenso aquece.  O Brett gosta de ensinar e o fato de eu ter feito o curso de Agricultura Biodinâmica contribuiu para o sucesso da minha experiência porque eles são religiosamente biodinâmicos.  O Brett faz seminários e cursos na fazenda.  
O que tem chamado muito minha atenção é o uso costumeiro de energia solar aqui na Austrália. Principalmente nesta área que é tão rural. Todo o calor e eletricidade vêm de energia solar. Eles gastam muito em painéis solares, mas –muitas vezes- o governo reembolsa o valor gasto para incentivar o uso cada vez maior desta tecnologia. Até mesmo a bomba d´água é movida por energia solar. No meio do açude tem uma barcaça com os painéis e uma bomba de deslocamento positivo e funciona super bem. É um sistema bem simples, segundo o Brett.  Eles também levam muito a sério os projetos de captação de água de chuva porque no verão podem sofrer com falta de chuva.  Armazenam a água em grandes caixas d´água, além dos açudes.
O silêncio me permitia ouvir o trabalho intenso das abelhas sempre começando no meio da manhã, quando o sol já aquecia as flores... A chuva, quando mais intensa e muito bem vinda pelo Brett, nos presenteava com o coaxar engraçado das “rãs gargalhadoras” (“laughing frogs”)... A ventania, comum na região, nos fazia temer pela derrubada de grandes eucaliptos mais idosos e frágeis. E, quando arrancava, trazia junto um torrão de terra junto com a robusta raiz.  E o fogo aceso da lareira durante todo o tempo aquecia e quebrava o silêncio com o criptar das labaredas.  O chá com  leite às 10:30 e às 15:30 hr quebrava a rotina do trabalho, religiosamente. O mugido alto e sofrido das vacas, mesmo ao longe, dava sinal claro que era preciso trocá-las de piquete porque a comida estava escassa para uma turma tão grande e faminta. Ou que algum bezerro danado de levado havia pulado a cerca elétrica e se afastado da mãe aflita.  Eu amava preparar o jantar... colher uma alface crocante, pura saúde, para complementar uma salada de legumes também da fazenda: abóbora, batata inglesa, batata doce, couve-flor, brócolis.  Obrigatória uma taça de vinho todas as noites. Bom exercitar o ouvido com os diferentes barulhos noturnos, da madrugada, do amanhecer, do final de tarde. E se divertir com as travessuras da Pepper, uma gata selvagem, que interage de todas as formas e que adora caçar e comer pequenas aranhas que se espalham por todos os cantos da casa. Ensinei a Pepper a beber água corrente da torneira. Ela adorou!!  Tudo pode ser enriquecedor. A discussão sobre um livro do Paulo Coelho, surpreendentemente largado na mesa principal da sala de jantar.  Descobrir que a Leonie conhece a obra do Paulo Coelho melhor do que eu. E compartilhar que o meu escritor favorito contemporâneo é um Australiano.  Coincidências?? Sincronicidades?? O sentimento de “pertencer” ao ser convidada para opinar sobre a melhor cor da tinta para pintar a sala de aulas onde acontecem as aulas de biodinâmica.
Me questiono se devia ter vivido esta experiência mais cedo na minha vida... Como tenho certeza de que as coisas sempre acontecem no momento certo, a resposta é, imediatamente, NÃO.  Foi rica agora.
Ao voltar de ônibus para Margaret River, sinto uma felicidade tranquila por estar encerrando mais uma experiência bem sucedida na minha vida.








ALEGRIAS!!  E obrigada Prem Baba por ter me ensinado a compreender a felicidade. 
MY WWOOFER EXPERIENCE - PARTE IV


06/08 – 3º dia na fazenda
Sempre acordo antes da Leonie e do Brett. Movimento-me devagar para não acordá-los. Hoje resolvi ir caminhar bem cedinho. Mas quando cheguei perto do galpão, vi que o Brett havia trazido caixas da Cooperativa e que eu podia terminar meu trabalho com as abóboras. Descarreguei o caminhão e acabei de encaixotar as abóboras. Segui minha caminhada por um gramado lindo que me levaria para uma floresta logo depois da divisa com a fazenda. É uma subida relativamente íngreme.  Vagarosamente o tempo começou a mudar e senti aquele vento característico de chuva. Voltei de onde eu estava porque na floresta não teria abrigo contra a chuva.
Tomei chá com leite com o Brett.  Ah... quando acordo, sempre pego uma maça bem vermelha (maça da Branca de Neve) que colhi no dia anterior e que são deliciosas. Crocantes.
Hoje devo colher mexericas para um cliente da fazenda. E limões de duas espécies (“lemom” e “lime”). E poder os pés frutíferos. Subir em escada, esticar... esticar para tentar alcançar as frutas mais bonitas que sempre estão nos galhos mais altos. A Leonie percebe minha dificuldade e vai me socorrer. Que bom!!
............
Ah... não vou cansar Vocês com os detalhes do meu dia-a-dia.  Quero reforçar que esta experiência é muito válida.  Ser recebida na casa de pessoas que Você nunca viu na vida e conviver com elas de uma forma muito próxima. Assim como nas minhas viagens, onde é preciso sempre aceitar diversidades e mudar a percepção das coisas a cada experiência, aqui é a mesma coisa.  Formamos uma família. Eu lavo louça, cozinho para todos nós, lavo roupa, mantenho a lareira acessa, tenho acesso a tudo, como uma pessoa da casa.  Uma família formada de uma hora para outra e que, para felicidade de todos e o bem estar da nação,  deve viver em harmonia.
Fiquei feliz em aprender a tocar o gado com o quadriciclo e em dirigir o caminhãozinho 4 X 4 pelas estradinhas de terra.  O céu é o limite... Será???
Culpa minha!!!! O céu NÃO É O LIMITE... Eu tenho meus limites físicos e não os respeitei.  Fiquei mal.  Bom que eu estou voltando amanhã cedinho para a casa da Fernanda. Temi muito pela minha saúde. Dois dias depois eu ainda estava mal e passei o dia todo deitada, descansando.  Nem eu acredito!!! Só assim me recuperei.  Conselho aos futuros WWOOFer: respeitem seus limites. Normalmente estamos longe de casa e de todos e não é bom ficar doente nesta situação.
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Volto para a fazenda na semana que vem.  Com mais sabedoria!! Qualquer novidade, eu conto.
Nota: os brotos na terceira foto são de batatas que estão esperando ser plantadas... 




ALEGRIAS!
MY WWOOFer EXPERIENCE - III PARTE


05/08 – 2º dia de trabalho na fazenda
Acordo bem cedinho. Faço 1 hora de meditação ainda na cama. Hoje está muito frio. Olho pela janela e vejo que caiu geada.  Depois levanto, me visto e vou caminhar.  O dia está tão lindo. Céu azul, a lua ainda no Oeste e o sol brilhando no Leste.  Tiro fotos do açude e o lindo espelho d´água dos enormes eucaliptos ao redor.  Caminho até o piquete onde está o rebanho. Quando eles percebem minha presença, se agitam e começam a andar em minha direção. Eu me assusto porque não sei se a cerca está eletrificada e se eles vão parar. Um bezerro consegue pular a cerca e vem para o outro lado do piquete.  Dou meia volta e tento me afastar. Mas as vacas, num coro uníssono, denunciam minha presença. A mãe do  bezerrinho, que está sozinho do outro lado, muge.
Encontro o Brett no caminho, paro para conversar, falamos sobre o dia lindo e ele está considerando voar. Ele tem um pequeno avião – um Ultraleve. É apaixonado por voar. A Leonie foi trabalhar de novo.
Vou tomar café e depois nossa tarefa é colher verduras. O Brett engata uma carreta no quadriciclo, eu carrego as caixas, monto na carreta e lá vamos nós para a roça. É tão divertido andar na carreta. Apesar do frio... O Brett está levando roupas de borracha –calça e jaqueta- para usarmos durante a colheita. Parece tudo tão fácil e nada cansativo. Colhemos 8 caixas entre couve-flor e repolho. Quando terminamos, ficamos encostados na carreta, conversando. Eu percebo a paz que existe neste canto e me parece que nada pode destruí-la.  É linda a vista. Vê-se muito ao longe...  Conversamos sobre certificação orgânica, biodinâmica, custos e preço pago pelas verduras. A certificação aqui não é tão cara quanto no Brasil, mas se paga 1% de todo o faturamento para a Empresa Certificadora. Acaba ficando tão caro quanto, ou até mais. Sempre que paramos para um papo, o Brett me fala alguma coisa sobre agricultura biodinâmica ou sobre Antroposofia. A Leonie e ele leem  juntos, à noite, algum livro do Steiner e o discutem. Ele sabe muito!
Pausa para o café...
Volto para terminar o meu trabalho com as abóboras.
Hoje é domingo.  Vou aceitar trabalhar só meio período.
Mesmo porque, a alegria-sem-causa e a paz caminham de mãos dadas, como duas melhores amigas e não quero perder este momento.
ALEGRIAS!!


MY WWOOFer EXPERIENCE - parte II


Minha primeira tarefa: ajudar o Brett a transferir o gado de um piquete para o outro. Eu não tenho experiência alguma com gado. A maioria do rebanho é gado ANGUS e alguns poucos uma mistura de ANGUS com outra raça. É um rebanho estritamente de corte e o Brett sequer ordenha as vacas. Os bezerros têm uma infância feliz. Ele usa arame eletrificado para separar os piquetes. Cuida do capim com preparados biodinâmicos e faz cobertura com composto também biodinâmico. Conhece, só de olhar, o que o capim precisa: Nitrogênio? Potássio? Cálcio? Ferro??  E sabe também o que o rebanho precisa só pelo esterco... Hoje ele decidiu que eles precisam de um pouco de celulose porque o esterco está muito solto.  O rebanho fica logo agitado ao perceber nossa aproximação porque sabe que pode ganhar comida, ou ser transferido para um pasto mais exuberante. O Brett usa um quadriciclo para tocá-los.  Aliás, ele usa este quadriciclo um bocado para se locomover dentro da fazenda.  Eu sou incumbida de segurar o arame,  que neste momento não está conectado na energia elétrica rssss, para impedir que o gado se espalhe.  Dou uma de corajosa, mas não conheço o comportamento do gado e não sei se vou conseguir. O Brett toca o gado, grita, chama-os de “IDIOT” e ‘FOOL” aqueles que não seguem o rebanho.  Eles são transferidos para um piquete onde tem um grande monte de composto de esterco de galinha e, principalmente, os novilhos adoram subir no monte e comer o composto. Minha tarefa: isolar o composto, com fio eletrificado.  Corro para o galpão, pego um rolo do fio, umas hastes de apoio e nem sei por onde começar.  Melhor começar por algum ponto.  Tenho medo de tocar o rebanho que está todo ao redor do monte. Estou sozinha.  Pego um galho seco de eucalipto e vou, devagar, me chegando. Um touro me encara e não desvia o olhar. Eu paro e espero seu próximo movimento. Aos poucos o rebanho vai se movendo em direção contrária e eu me sinto mais segura.  Começo a cercar o monte e o Brett chega em seguida.  Me dá algumas orientações e, com ele perto, tudo é tão mais fácil.
Pausa para um café. Delicioso. Orgânico, importado do México, mas torrado e moído aqui perto por um expert em café. Paladar suave, sem acidez.  Meu amigo, Fabiano, adoraria.
A segunda tarefa foi lavar, separar por tamanho e encaixotar cerca de 2 centenas de abóboras. Faz frio e a água está tão gelada. Para mim parece um quebra cabeça já que é preciso respeitar uma altura máxima porque as caixas vão ser empilhadas até 4 de alto. Aos poucos, vou me sentindo mais à vontade.
Vamos almoçar.
Vou voltar para minhas abóboras e o Brett informa que WWOOFer só trabalha meio dia. Lógico que não compro esta condição porque não consigo deixar algo inacabado. Fico livre para fazer o que eu quero. Volto para as abóboras.
Paro por volta das 16:00  hr e vou tomar banho, aproveitando que a água  -só aquecida por aquecimento solar- deve estar bem quentinha.
Depois do banho, recolho a roupa da Leonie que está no varal porque ela foi trabalhar. Um pouco depois o Brett e eu jantamos e às 20:30 hr já estou na caminha. Cansada e muito em paz. Ouço mantras, leio meu  livro, jogo paciência no computador. E o soninho chega.











MY WWOOFer EXPERIENCE

Hoje foi o inicio de uma nova experiência na minha vida. E começou com aquela sensação de “será que eu vou conseguir” que é constante em todo novo projeto.
Fernanda e eu rimos no caminho para a pequena cidade onde eu iria encontrar minha  anfitriã:
´”Fe... está engraçado. A sensação é que eu sou a filha, Vc é a mãe e está me levando para um colégio interno.”
Lá vem a Leonie. Ela é uma mulher de uns 50 anos, meio descuidada, mas bem simpática. Logo de cara sinto-me à vontade com ela. Entramos na casa onde ela está. É de uma amiga dela. O Brett, marido da Leonie, chegou quase 1 hora depois e também tive certeza de que me daria bem com ele. Cabelo desarrumado, dentes meio amarelados, roupa descuidada.
Partimos depois do almoço. Paramos em alguns lugares e viemos para a pequena cidade, Donnybrooks, onde eles têm a fazenda. Eles são antroposóficos, os filhos estudaram em escola antroposófica e, pouco a pouco, percebo que o compromisso deles com o meio ambiente é prá valer!! Veneno na lavoura é inconcebível. Brett é a 4ª. geração de fazendeiros. Abandonou por um bom tempo a fazenda, foi atrás dos seus sonhos, conheceu a Leonie numa temporada na Nova Zelândia, onde era um WWOOFer e ambos cursavam Naturopatia.  A Leonie é 2ª. geração de fazendeiros.  Depois de um tempo, resolveram voltar para a fazenda aqui na Austrália e, junto com os herdeiros do avô do Brett, têm uma enorme área. Têm 3 filhos. Recebem WWOOFer já há uns 16 anos. Criam gado dentro das técnicas biodinâmicas , i.e., todo o pasto recebe os preparados que dá vida e energia cósmica à pastagem. Preparam seu composto e todos os preparados criados pelo Rudolf Steiner. Existe um pé de carvalho bem na entrada da casa e de lá tiram a casca para fazer um dos preparados.  No Brasil é mais complicado porque não temos carvalhos apropriados.  As bexigas do cervo conseguem de um vizinho próximo que cultiva veados. No Brasil é preciso importar as bexigas. E precisam plantar algumas ervas como a camomila, a urtiga, a mil folhas. O resto existe na natureza.   A casa é simples: 80% em madeira de árvores antigas que caíram por si só e que foram cuidadas e beneficiadas pelo Brett –SEM VENENO algum-.  Ele parece ser muito habilidoso e faz quase tudo na fazenda: do cultivo, da preparação dos insumos biodinâmicos, do cuidado com o gado até a manutenção de tudo, construção de novas áreas. Demonstra ter uma cultura rica e é muito antenado nas notícias do mundo. Sabe das privatizações forçadas do Hugo Chaves, sabe que a Bolivia tem seu primeiro presidente índio e que peitou a Espanha para nacionalizar a exploração de petróleo e aprova. Participa de grupo de estudo das 8 Conferências sobre Agricultura do Steiner pela 3ª. vez e confessa...”Sempre tem coisa nova para aprender”.  Entende que Steiner permite flexibilidade nos procedimentos, então varia algumas técnicas e acredita piamente nos resultados.  O calendário biodinâmico é sua bíblia e ele o interpreta com facilidade. Olha de longe e já tem a resposta ao que procura.
Tenho meu próprio quarto dentro da casa. Uma cama gostosa com dois edredons porque faz frio.  E só um abajur ao lado da cama. Não preciso de mais nada.  Está uma  noite linda de lua cheia e ela clareia tudo.  Brilha lá no alto e, ao fundo, o contorno das árvores forma sua moldura. É tão lindo. Barulhos só da natureza. Estamos longe de qualquer barulho da civilização.  Só a TV que está ligada na sala, onde estão a Leonie e o Brett.
Chove... Aqui é assim.  O céu está aberto... de repente, chove!! O Brett, assim como todo agricultor, adora e recepciona bem a chuva. Água é vida.
Vou dormir.  Amanhã sei que terei trabalho a fazer. E quero andar pelo pasto, quero cheirar o composto biodinâmico, tocar a terra. Xeretar na pequena horta.
Obs.: a última foto é de um Flowform que é usado para "dinamizar" os preparados biodinâmicos.




sábado, 11 de agosto de 2012

Minha convivência com os MAASAI´s

22/07/2012

Bem, como prometi, este relato vai ser sobre o povo MAASAI.
Povo original da Etiópia e da Somália que foram migrando para a Tanzânia em busca de pasto para os seus rebanhos de gado, ovelhas e cabritos. E em busca de paz. A Tanzânia é bastante pacífica. Os Maasais têm um biótipo bem característico: altos e muito magros. Andam com o corpo coberto sempre por um cobertor xadrez, azul ou vermelho jogado sobre uma túnica que cobre o corpo. As mulheres também cobrem os corpos com uma túnica colorida enrolada e cobertores azuis ou xadrez. Eles se enfeitam muito com colares, vários brincos longos, pulseiras, tornozeleiras de miçangas coloridas. As mulheres sempre têm a cabeça totalmente raspada, enquanto os homens podem ter cabelos longos. Não vi qualquer Massai com cabelos longos. Também tinham as cabeças raspadas. 
Nas minhas andanças pelo mundo, eu procuro, sempre que possível, conhecer um pouco da origem dos povos nativos. E sempre me entristeço ao ver a perda da cultura, das tradições, do folclore, do sentido de vida. Entristeci-me muito quando visitei alguns lugares onde vivem os Aborígenes, na Austrália. Depois que perderam boa parte da sua cultura, muitos deles se perderam também. E vivem pelas praças e pelas ruas embriagados. E, incrivelmente, os MAASAI conseguem manter suas tradições vivendo perto da civilização. Será porque vivem perto de um povo que também tem tão pouco e, com isto, não se sentem incomodados com a “riqueza cultural” dessa tribo??
Durante os dias de safari, paramos numa aldeia (= BOMA) dos Maasai. E logo um anfitrião da aldeia, falando Inglês, veio nos receber e negociar o preço para nossa entrada. 20.000 Shilling da Tanzânia por pessoa!!! (aprox.. US$ 15,00). Para permitir uma comparação, a passagem de ônibus de Dar para Arusha custou 28.000 shillings. Para um trecho de uns 500 km. Ou seja, muito caro!! E, depois que pagamos, podíamos fotografar à vontade, perguntar o que queríamos... Antes de entrarmos na BOMA, os homens fizeram apresentação de uma dança e, em seguida, as mulheres. Daí pudemos entrar. Lá dentro eles fizeram a apresentação do que é típico e famoso sobre eles: a capacidade de dar pulos muito altos. Tanto os homens como as mulheres. E o anfitrião nos dividiu em grupos de 2 e indicou um guia, também falando Inglês, para nos acompanhar dentro da aldeia. Entramos numa morada. Em formato oval, com a entrada em espiral, de teto baixo –não é possível ficar ereto dentro dela- feita de barro e com esterco de vaca e galhos finos de madeira muito resistente. O teto é coberto com capim bem espesso, que se aglutina muito bem com a fumaça do fogo que acendem dentro das suas casas. A fogueira, feita somente com três pedras em formato de um triângulo, serve para aquecer, cozinhar, iluminar, afastar insetos e animais. E fazer fumaça... Suas camas também são feitas com galhos bem resistentes, a uma altura de uns 0,20cm do chão e cobertas com couro. Existem dois ambientes: um quarto para o pai dormir com os filhos e o outro para a mãe dormir com as filhas. E, num outro canto, um lugar para guardar alguns utensílios. Principalmente as vasilhas para pegar água.
Sentamos num banquinho de couro e o guia explica que os Maasai´s são polígamos. O número de mulheres vai depender de quantas vacas, ovelhas, cabritos ele tem. Bebês mulher são bem vindas porque, ao casar, os pais recebem vacas como dote. Eles comem muita carne e bebem diariamente leite misturado com sangue das vacas. Com suas flechas, furam a jugular e de lá tiram o sangue. Quando estão nas suas andanças, bebem o sangue direto da jugular. Isto lhes dá muita saúde e energia para caminhar quilômetros e quilômetros em busca de água e bom pasto para os seus rebanhos. Nos seus grandes pés usam sandálias feitas de pneus num formato côncavo que lhes facilita o caminhar. Acreditam num único Deus ( ENKAI) que está no céu. Acreditam que Deus lhes deu o gado para sobrevivência e, por isto, roubam gados dos outros. Quase não comem vegetais e frutas porque, segundo o guia deste Boma, são comidas para os Deuses. Um outro guia complementou explicando que a terra deve ser guardada para pasto. E eles nem mesmo enterram seus mortos, para não "macular" a terra. Também não os incineram. Deixam os corpos para serem comidos pelos animais carnívoros e aves de rapina. Eles são semi-nômades. Os homens saem em longas caminhadas com seus rebanhos e as mulheres ficam nas bomas, cuidando de tudo e os homens voltam depois de algum tempo. Quando saímos desta casa, havia uma exposição das peças feitas por eles com miçangas. Aqueles colares que parecem um colarinho largo que desce desde o pescoço até quase a altura dos seios. Pulseiras, brincos, tornozeleiras. Coloridas, alegres. Eles aceitam US dólares.... As mulheres tentam e tentam te vender suas peças. Se Você diz não, abaixam o preço... As mulheres se enfeitam bastante. O guia diz que elas se fazem bonitas. Os homens também se enfeitam. Em seguida saímos um pouco de dentro da aldeia, vamos até uma cabana que ele nos apresenta como o “Kindergarten”. É só colocar o pé dentro da cabana e cerca de 20 crianças começam a cantar. Afinados, ensaiados... E um professor senta-se ao lado deles. E lá também tem uma caixinha para doações...
Saímos desse Boma super felizes... Achando que tínhamos visto verdadeiros MASAAI´s.
O melhor estava por vir... Eu tinha contratado um dia só cultural que seria passado com os Masaai´s. O meu último dia em Arusha. E, finalmente, o dia chegou...
Um guia de Arusha me pegou no hotel e fomos para o terminal de ônibus e pegamos uma van que faz o transporte comum das pessoas. Nosso destino: LONGIDO. Vila ao norte de Arusha e perto da fronteira da Tanzânia com Kênia. Capacidade máxima: 8 pessoas. Capacidade real:11 pessoas. Rssss. Viagem curta: 45 minutos.
(Um parêntese: as fronteiras são muito próximas e vi caminhões bonitos e novos nas estradas e entendi que o transporte internacional entre os países da África é grande)
Chegamos numa vila com casas semi acabadas, com vielas de areia fofa, sem qualquer planejamento. Paramos numa casa onde um senhor nos recebeu super bem e nos apresentou o ELY. O Ely é um Masaai Moderno. Seu pai abandonou a tribo e ele já nasceu um Masaai Moderno. Ele sabe tudo dos costumes, tradições, cultura. E começamos nossa longa caminhada em direção às montanhas ao longe. E o Ely vai parando e me mostrando algumas plantas que são medicinais. Me mostra exatamente como elas são usadas. A primeira ele esfrega a folha na palma da mão, depois a espreme e sai um líquido denso verde bem escuro. Ele explica que aquele líquido é um ótimo cicatrizante e cura dor. Levanta a camisa (Ely veste calça jeans, camisa estampada de algodão e sandálias tipo papete) e me mostra cicatrizes de cortes feitos paralelamente. Explica que uma vez teve uma dor de estomago muito forte e não tinha como leva-lo para o hospital. Sua mãe o levou para a BOMA e a “mãe curadora” o tratou com aquela erva. E ele se curou. Caminhamos mais um pouco, ele para de novo e retira um espinho de um arbusto, com, aprox.., 6 cm de comprimento. É muito pontiagudo e resistente. Com ele os Masaai´s fazem os furos nas orelhas e também fazem um furo na bochecha das crianças pequenas o qual deve permanecer sempre aberto para atrair as moscas e desviá-las dos olhos das crianças que não sabem ainda afastá-las. Este espinho também pode ser usado como agulha. Explica ainda que é hábito fazer cortes grandes nas orelhas para colocar os enormes brincos. Tudo isto a sangue frio, lógico. Os Masaai´s são conhecidos como um povo muito forte. Todos os meninos são circuncisados ao redor dos 16 anos numa cerimônia muito importante, nas montanhas. Mulheres não participam. Os meninos não podem chorar. Nem mesmo recuar a perna, numa demonstração de dor. Depois desta cerimônia, eles se vestem com túnicas pretas, pintam os rostos de preto e branco e vão viver longe do BOMA por anos, no meio dos arbustos, responsáveis por arrumar sua própria sobrevivência. Passam a ser GUERREIROS. Cruzamos com vários nas estradas. Alguns pedem dinheiro para serem fotografados com os turistas.
Pergunto como os Masaai´s conseguem ter os dentes tão brancos. Logo Ely para, sobe num galho mais alto de uma árvore, corta um galho de uns 60 cm, desce da árvore. Começa a descascar com as mãos a parte superior do galho, tira suas folhas e logo a extremidade do tronco se transforma em várias fibras, como se fosse uma escova de dente na vertical. Ele me passa um pedaço pronto e me sugere experimentar. E, juro, funciona!!! Cruzamos com um arbusto de “maça de Sodoma”, Ely pega um fruto mais maduro, faz um furo com o espinho pontiagudo e espirra um líquido amarelo. Segundo ele, é um ótimo remédio para doenças do peito... E continuamos nossa caminhada na areia fofa, a temperatura começa a aumentar. Vejo uma pequena BOMA à nossa frente. Passamos direto, Ely me mostra que a cerca é feita com galhos de um arbusto que vai me mostrar no caminho que é super resistente e que os animais não conseguem ultrapassá-la. Vejo debaixo de uma árvore um filhote de cabrito semi morto. Nos dirigimos para lá e Ely conversa com um Masaai mais idoso sentado debaixo de uma árvore na língua deles. A sociedade Masaai é paternalista e os mais velhos são muito respeitados. Ele responde que aquele filhote está doente do cérebro e eles estão esperando sua morte para comê-los. Passamos reto pelo BOMA... Começamos nossa caminhada em subida em direção à montanha. Ely vai me levar a uma caverna e a uma cachoeira. Subida mais íngreme na terra fofa... Ufaaa.... Cruzamos com duas meninas Masaai carregando lenha na cabeça, presas com um elástico na testa. Seus rostos são lindos. Elas permitem serem fotografadas. Na subida passamos por um grupo de mulheres Masaai lavando algumas roupas e outros utensílios, mas elas não querem ser fotografadas. É fácil respeitar a vontade delas. Guardo a lembrança no coração... Berros de cabritos, mugido de vacas. Eles estão ao redor. Tenho que parar para descansar... “Pole Pole”, diz Ely (Devagar, em swahili). Continuamos e ouço o Ely falar mais alto com alguém. Ele está pedindo permissão para chegar perto do grupo de Masaai que está na caverna. Chama-me para acompanha-lo. E lá está um grupo de homens e crianças. Um jovem está descascando uns troncos com uns 0,40 cm de comprimento, tem uma panela numa pequena fogueira cheia com água e coloca os troncos lá. Ely explica que ele está preparando um medicamento. Ele me olha muito desconfiado. Estou com óculos escuros e boné. Peço permissão para fotografá-lo. Ele concorda. Olha ao redor. Ao seu lado tem uma cama de folhas e sobre ela várias patas frescas de carneiro. Noto que em quase todos os troncos das árvores existem marcas paralelas cavadas a faca. Ely me explica que os Masaai´s fazem estas marcas para registrarem quanto tempo ficaram na montanha. Ele me chama para caminhar mais um pouco e entramos numa caverna e no fundo tem um tipo de armário feito com galhos de árvores e coberto com folhas. Um homem Masaai está com um facão na mão cortando carne fresca de carneiro. Na parede de pedra tem uma pintura de um símbolo que parece um escudo. Tem uma criança pequena de uns 3 anos. Ele me recebe com um sorriso de boas vindas. Todos os adornos dos Masaai´s que estão aqui estão pendurados nuns troncos atrás deste armário. E sobre o armário, em cima das folhas, tem outros cortes de carne. O rapaz que estava descascando os tronquinhos para colocar na água fervente entra e vem buscar um pedaço de carne. É tudo muito diferente e mágico. Eu assumo uma atitude de respeito. Sento-me numa pedra e só observo... Logo um menino com uns 9 anos se encanta com minha câmera fotográfica. Quer tirar fotos. Eu ensino a ele como focar e ele dá risada quando vê o resultado das suas fotos. Ele se encanta. Tem um pequeno espelho pendurado no seu pescoço. Tira fotografias bem focadas. Está bem feliz!! Peço a máquina de volta, saio da caverna e voltamos a subir mais um pouco a montanha. Vemos uma família inteira de macacos pulando nas árvores. A temperatura está muito agradável nesta altitude. As vacas bebem água no riacho. A subida fica mais íngreme e eu decido que não quero ver a cachoeira... Mesmo porque tem pouca água. Prefiro ficar com os Masaai´s. Passamos por outra caverna similar a anterior. Vazia... Voltamos para a primeira caverna. Eu me sento numa pedra e fico quieta, observando. Esperando ser aceita. O bebê de 3 anos se recusa a chegar perto de mim... Tiro os óculos escuros, tiro o boné, solto meus cabelos e sorrio para ele. Ainda há muita desconfiança... O pai pergunta se eu não tenho alguma comida para dar para ele. Lembro que trouxe um pão doce com canela. Tiro-o da mochila, divido com o pequeno e logo chegam os outros garotos para compartilhar. Daí o pequeno vai se chegando, se chegando, senta ao meu lado. As moscas o rodeiam. Pego um galho com folhas e fico afastando as moscas do seu pão doce e do seu rosto. Coloco-o sentado ao meu lado. O rapaz que cuida do fogo e que já juntou os pés do cabrito naquela sopa, passa a me olhar com um sorriso. Já não sou mais a estranha... Continuo sentada em silêncio, observando. O momento é sagrado. Percebo que aquilo é real sim... Não é algum filme como o que trabalhei junto com o Hector Babenco na selva amazônica. E penso que a vida pode sim ser vivida de várias formas. Até desta forma tão básica... tão natural. A natureza provendo tudo.... quase tudo... As mulheres não vêm para a montanha, não participam destes rituais. Assim como não participam de um grande ritual na “Montanha de Deus”, localizada no nordeste da Tanzânia, onde fazem sacrifícios de carneiros para ENKAI. Os homens não comem na frente das mulheres. Acreditam que se o fizerem, isto pode trazer-lhes má sorte ou, até mesmo, dor de estomago. Um pai pede para eu tirar uma foto dele com seu filho. Levanto, chego perto deles, fotografo. Ele quer minha máquina para fotografar o grupo de garotos. Ele não consegue entender que tem que focar antes de fotografar... Eles dão risada. Ely pega um pedaço de carne fresca, espetada num espeto de galho de árvore e o coloca à beira de um fogo baixinho. Uma imagem em tamanho miniatura do famoso churrasco “fogo no chão”. Daqui a pouco pega uma faca e começa a fatiar a carne e comê-la. Ely já me explicou que os Masaai´s tradicionais o aceitam, mas não o respeitam... Não acham que ele sabe mais porque vive na civilização. Ao contrário... Continuam tirando foto, brincando com a máquina. Sou parte deles por este breve instante. Estou agradecida e feliz. Ficamos lá cerca de ½ hora, compartilhando... E daí nos vamos. Descemos a montanha, caminhamos na areia fofa e entramos na BOMA. Sei que a primeira tenda do lado direito da entrada é da primeira esposa. A primeira da esquerda é da segunda esposa... E assim por diante. Ely pede autorização para entrar numa tenda. A mulher concorda... Entramos. Ela enfeitou sua cabana com vidros colados no esterco da vaca enquanto ainda úmido o que criou uma decoração graciosa. Ela tem um bebê no colo e outra criança. Meus olhos ainda não se acostumaram com a escuridão. Leva um tempo. A janela na cabana é muito pequena. Ficamos sentados. O nome dela é MARIA. Ela fica feliz quando sabe que eu também me chamo Maria. E vejo três canequinhas de ágata penduradas na parede. Peço para Ely dizer a ela que eu também tenho canecas que nem aquela. Ficamos mais um tempo e vamos embora.
Agora posso dizer que conheço Masaai´s de verdade. 
E é mais uma lição de vida.
Como valeu a pena!!!
ALEGRIAS!!




















21/07/2012



















Hoje é o meu penúltimo dia na Tanzânia. Neste momento estou no ônibus que me leva de volta para Dar es Salaam. Passei os últimos 6 dias em ARUSHA, uma cidade menor do que Dar.
Repito... a Tanzânia é um pais pobre, feio e eu mudei sim minha percepção e meus conceitos sobre a pobreza e sobre beleza. O povo não atende “nossos” padrões de beleza para a raça negra. Nosso conceito de beleza dos negros está muito ligado à beleza estonteante das mulatas que desfilam nas nossas escolas de samba. Mas eu garanto que é um povo alegre, gentil e educado dentro dos padrões de educação na Tanzânia. Somente 10% da população em Arusha (com população estimada em 1 milhão) têm água corrente nas residências. Os que vivem na área urbana têm que buscar água em torneiras públicas ao longo das vias públicas, ou compram águas de ambulantes que transitam aos montes pelas ruas. Os que vivem na zona mais afastada têm que caminhar muito, carregando seus baldes na cabeça, para buscar água. Alguns caminham quilômetros!! Soube que, nas partes mais baixas, um poço com 25 mt de profundidade pode trazer água. Em outras áreas, pode ser necessário cavar até 200 mt de profundidade. Esta região tem o solo coberto por larvas dos inúmeros vulcões existentes aqui há milhões de anos atrás. Somente a camada superficial do solo pode ser fértil... Mesmo assim eles têm abundância de mangas, laranjas, abacates, cajus, bananas. E sisal.... Pude ver muitas fazendas de sisal. E eles exportam muito sisal para depois comprar as cordas prontas. O velho problema da economia primária dos países subdesenvolvidos. A Tanzânia é muito rica em pedras preciosas, principalmente a Tanzanite. Eu não as vi... Soube que a maioria é exportada e o dinheiro da venda não é aplicado no pais. Todos com quem conversei falam do problema da grande corrupção dos governantes. A outra grande fonte de renda deste país é o turismo. Um trekking de 6 dias no Kilimanjaro custa para o turista US$ 1.500,00 SÓ DE TAXAS PARA O GOVERNO... Fora os custos com a agência de turismo. Os parques nacionais provêm uma das maiores fonte de renda do país. Somente 10 a 15% dos jovens vão para a Universidade. E muitos daqueles que conseguem um trabalho formal são tratados como escravos (salários baixos, muitas horas de trabalho, sem qualquer benefício social). E daí a reflexão sobre “povo educado”... É preciso mudar a percepção sobre educação em cada país que visito. 
Estive em 3 parques nacionais: O do lago Manyara foi o primeiro. Este parque recebe muita água do parque Ngorongoro , onde existem crateras (que o guia acha mais apropriado chamar de “caldeira” porque estão verdadeiramente extintos) e que está 900 mt mais alto do que o Parque Manyara. Vê-se inúmeros riachos correndo e alimentando a terra que apresenta uma vegetação bem verde e mais abundante e me encantei com as enormes árvores, muito antigas e majestosas. Uma lição muito bem aprendida nestas andanças: ÁGUA É VIDA. A diferença entre a paisagem das savanas e deste parque é tão gritante que a sensação que eu tive é que estava passando num túnel do tempo e indo para outra civilização. Logo na entrada do parque veem-se uns pássaros enormes, com penas brancas que emitem abundantes sons agudos e vivem em incontáveis ninhos. É vida em abundância!!! Somos três (um rapaz da Noruega casado com a Catalina, argentina e eu) no jeep LAND ROVER, que levanta a capota para que todos possam ficar em pé e procurar e ver os animais. Temos o motorista, que é também o guia (Richard), e o cozinheiro (Dodo) que nos acompanharão pelos próximos 4 dias. Os babuínos (será esta a palavra em português para “baboons”??) nos recepcionam aos montes nos primeiros metros dentro do parque. De todos os tamanhos, com seus bebês agarrados no ventre das mães, enquanto muito novos, ou montados em suas costas quando já estão maiores e estão quase prontos para sobreviverem sozinhos. Vamos parar para nosso almoço. Recebemos uma caixa com um hambúrguer no pão, massa de panqueca sem recheio, uma banana, um suco de caixinha, uma coxa + sobrecoxa de frango assado, frio e seco. Este frango vai nos acompanhar por muitos outros almoços... rssss... (Importante acrescentar que os safaris contratados por mim são "Budget Safari". Ou seja, os mais simples. Nesta mesma área de lanche havia um outro grupo que tinha garçom devidamente vestido para tal, toalha na mesa, balde de gelo com garrafa de vinho, pratos de porcelana, taças de vidro, guardanapos... Enfim, Você pode escolher o quanto quer de conforto nos seus safaris).  Tem lindos pássaros com exuberantes asas azuis que se aproximam sem medo. Para quê alimentar os pássaros se eles têm alimento abundante na própria casa?? 
Seguimos com nosso safari e a paisagem volta a apresentar características de savana. E variadas espécies de animais começam a aparecer. Logo de cara um elefante quebrando galhos de um arbusto e se alimentando. Enorme, com suas orelhas parecendo asas, se movendo devagar e pesadamente. Logo aprendemos que elefantes dificilmente andam sozinhos. E lá aparecem outros. E depois muitas zebras, inúmeras girafas –tão graciosas e elegantes no andar-, esticando seus pescoços ainda mais para alcançar os galhos mais tenros das Acácias (sua alimentação preferida). As girafas não dormem e não deitam. Somente sentam e cochilam. Também são animais coletivos. O guia logo avista um leão deitado no meio da grama alta, comum das savanas. Entendo porque os leões gostam deste ambiente... eles se misturam e se confundem com a grama. Perfeito para um ataque silencioso e de surpresa às presas abundantes nos parques. Vemos muitas “wild beasts” (alguém sabe a tradução para este nome??? Eu não consigo identifica-los no meu parco conhecimento do mundo animal...). Ah... antes que eu me esqueça: me apaixonei pelos BAOBÁS... Enormes, gordos, sem folhas, totalmente pelados (é inverno) ... ameaçadores algumas vezes. Lindos!!! E fomos nos aproximando do lago. Vimos pesados hipopótamos dentro do pântano. Eles não podem expor-se ao calor do sol. Sua pele é sensível ao sol. Ao contrário, lá está um crocodilo se aquecendo ao sol... E já à beira do lago milhares de flamingos e outras aves, voando soltas em bandos e formando desenhos alucinógenos no ar... Eu me deixei levar por aquele momento e voei com os flamingos, destoando algumas vezes do seu voo livre, mas voltando logo ao bando antes de despertar do sonho e me esborrachar no chão!!! (smile). 
Tão engraçado o fato de ter que parar o carro para as zebras atravessarem a rua, ou até mesmo as graciosas girafas. 
Fomos para nosso camping, As barracas estavam montadas, havia água quente no chuveiro e foi possível remover toda a poeira de um dia nas savanas. Gostoso sentir-me limpa... Hábitos arraigados que não se esquece facilmente. O Dodo, cozinheiro, havia preparado uma deliciosa sopa de pacotinho de aspargos, arroz, carne refogada, legumes refogados. Eu abri mão da carne e comi o resto com vontade. Tinha outros grupos no camping e aconteceu um show de música e dança no refeitório grande. Divertido... Fui para a barraca, ganhei um colchão fininho, um saco de dormir, coloquei minha camisola de flanela com rendinha (kkkk.... nada a ver, não é não??) e tentei dormir. Sem muito sucesso... Barulhos estranhos me mantiveram acordada... O que era vento, o que podia ser uma hiena em busca de comida ou outro animal?? Hienas são MUITO agressivas. De manhã fomos apresentadas para os outros 3 elementos do nosso grupo: um rapaz com 23 anos da Coréia do Sul SUPER ENGRAÇADO e duas meninas da Holanda. E com eles partimos para nosso segundo dia de safari. Entramos numa área de conservação do Ngorongoro e a impressão que eu tive é que estávamos num deserto. Absolutamente nenhuma vegetação, pedras pretas soltas, muita poeira... Aqui era um vulcão... o que mais esperar? Só se ve em todas as partes, ao longe e bem próximos, rebanhos de gado, de cabritos ou de ovelhas conduzidos por MASAAI´s com seus cobertores vermelhos ou xadrez, com seus altos cajados, inúmeros colares, pulseiras, tornozeleiras em miçangas coloridas. Eles se espalham nesta imensidão... Se destacam na paisagem... Estão em todos os lugares. E, ocasionalmente, ve-se algumas de suas aldeias –BOMA- montadas em círculos com suas casas feitas com lama+esterco de vaca e cobertas com capim que se aglutinam em função da fumaça das pequenas fogueiras acesas dentro das cabanas para cozinhar, aquecer e iluminar. Não é possível ficar ereto dentro das casas. Vamos combinar uma coisa?? Vou preparar um capítulo só para falar dos MASAAI´s. Aprendi um pouco sobre eles e estou surpresa como eles conseguem manter suas tradições, apesar dos apelos do mundo moderno. E muito, mas muito feliz de verdade em senti-los felizes e saber que é possível sobreviver com tão pouco e em harmonia com a natureza. Me pareceu uma sintonia perfeita entre homens e natureza. 
Nosso destino é o Parque Nacional Serengeti. É enorme... 18.000 km2 (... eu acho). Vimos muitos, muitos animais. É maravilhoso ver os animais nos seus habitats naturais, em enormes bandos, livres. Vimos leopardo que tinha acabado de matar um impala e o arrastado para o alto de uma árvore para não ter que dividi-lo com ninguém. Leopardos são individualistas... Vimos um grupo de leoas que estava descansando ao redor de uma “wild beast” que tinham acabado de matar. Uma delas se deliciava com a caça e tinha a boca e ao redor completamente suja de sangue. E os abutres já estavam rodeando o espaço, esperando sua parte. E os chacais, abusados, se insinuando e querendo chegar perto. Só as leoas caçam... Os machos cuidam da segurança. Vimos um bando de leoas com seus filhotes brincando como crianças pequenas e felizes, subindo em troncos de árvores caídos no chão... Vimos um leão e uma leoa se acasalando e o rugido satisfeito do leão. E ali perto o leão perdedor, largado no meio da grama e dormindo. Vimos bebês de girafas, de búfalos, de leões, de elefantes, de hienas, de crocodilos, de macacos, de babuínos, de hipopótamo... Simplesmente demais. Tivemos muita sorte nos safaris. Dos “Big Five” (leão, elefante, búfalo, leopardo, rinoceronte) só não vimos o rinoceronte... O buscamos em todos os parques e não o vimos... Eles foram muito caçados por causa da sua presa e existem em menor número hoje em dia. Impalas existem aos milhões e são presas fáceis para os predadores. Uma observação: o rabo da zebra também tem listras branco e preta até 1/3 do seu tamanho. Depois se abrem como rabos de cavalos. 
Nesta noite dormimos num outro acampamento, com quase nenhuma estrutura (era um acampamento público) e eu tinha uma outra barraca cuja parte de cima não era a apropriada para a parte de baixo e entrava vento demais. Faz frio à noite e eu ouvi a risada da hiena que andava ali próxima e dormi muito pouco. Por causa do nosso encantamento da natureza, chegamos só à noite no acampamento e foi um drama montar barracas no escuro total...Banho frio... Comida OK preparada pelo Dodo. Uma coisa muito legal destas aventuras é compartilhar culturas. Ouvir histórias de muitas partes do mundo e suas diferentes percepções de fatos em comum. Adoro isto!!! É de uma riqueza sem preço. E que ninguém pode roubar.
Acordamos às 6:00 hr, ainda escuro e muito frio para nos presentearmos com o nascer do sol. Parece ser OBRIGATÓRIO. É tão lindo que tem que ser proibido perder. E a vida animal é muito intensa a esta hora da manhã. A corrida de um bando de zebras contra os raios do sol a nascer é indescritível. E continuamos em busca do nosso rinoceronte... “Vamos passear na savana enquanto o rino não vem....”. E aproveitar e ver outro leopardo pulando nos galhos da árvore... Visão distante que fica mais clara com o zoom das câmeras fotográficas. Eu queria muito ver os leões no seu habitat natural... E de repente os vi de monte... Eu achava que seria tão difícil... E torna a parar o carro para dar passagem para um bando de leoas. Divertido, né? Hora de voltar para o acampamento, fazer um brunch, desmontar as barracas, colocar toda a bagagem sobre o teto do LAND ROVER e seguir viagem rumo à cratera (..ou será mesmo a caldeira??) Ngorongoro. Vamos descer 620 mt para chegar no fundo. Eu havia entendido que dentro da cratera, que é no formato de um ovo e mede, aprox.., 9 km X6 km, haveria muita vegetação. Mas é também uma savana. Rica em vida animal. Tem bastante água, um grande lago e –como água é VIDA- é isto que vemos em abundância... Existem pequenas áreas com bosques, muitas acácias e, consequentemente, muitas girafas e elefantes. Vimos duas leoas atacando um bando enorme de zebras e “wild beasts” que corriam em disparada para todos os lados. E muita poeira no ar... Vimos um leão jovem que estava ferido nas costas e deitado bem na beira da estrada, cansado de alguma luta recente... E, de novo, um bando de 6 leoas deitas ao redor de um recém caçado búfalo. Só descansando... Deve ter sido um trabalho árduo... o búfalo era enorme.
Fomos mais cedo para nosso acampamento desta noite. Mais fácil montar as barracas enquanto ainda está claro. Minha barraca continua “desparelhada”... E sei que faz muito frio neste acampamento porque estamos a 2500 m de altitude. Ai, ai, ai... Chuveiro com água bem quente, boa estrutura neste camping “privado”. E daí veio um caso bem legal... Vieram me chamar porque havia elefantes ali bem perto. Caminhei uns 20 mts e lá estavam 2 grandes elefantes e um filhote. Eu estava a uns 4 metros dele e o guarda do parque chegou me dando uma séria bronca porque tinha me avisado para eu não chegar perto. Eu respondi que nem estava perto e nem tinha sido avisada de nada. Minha amiga holandesa , que havia chegado muito perto e foi ameaçada pelo elefante, veio em minha salvação explicando que havia sido ela quem havia sido advertida. “They are not Indian elephantes. They are Africans!!” Senti-me uma criança levada sendo advertida por ter cometido uma imperdoável travessura. Os elefantes vieram em direção às barracas, todos foram se afastando e lá foram eles em direção à caixa d´água. Beberam água com suas enormes trombas, a mamãe elefante pegava água e colocava dentro da boca do filhote. Sem pressa... Com delicadeza. Como cabe a elefantes educados do Este da África. Jantamos e o frio se acentuando. Terminamos o jantar e havia um delicioso “camp fire” esperando por nós. Pessoas de várias partes do mundo sentadas ao redor e nosso amigo da Coréia do Sul ensinando-nos a cantar a Canção dos Parques Nacionais da Tanzânia. Foi muito divertido. E graças a esta fogueira, consegui aquecer o corpo e ir para a barraca, me meter no saco de dormir, enrolar o pé num agasalho de nylon, me enrolar no meu chalé muito quentinho da Índia e me preparar para a temperatura de 6 graus e muita umidade durante toda a noite. Sem coragem de me mexer para não correr o risco de me esfriar... Ao amanhecer, o camping estava encoberta por uma densa neblina e muito frio. Desmontamos as barracas e pegamos o caminho de volta para a cidade de ARUSHA. Com paradas no caminho para fotos, ainda alguns animais, mas tudo passou a ser rotina. Como eu ouso não mais me interessar por uma girafa, ou por um elefante??
Umas dicas finais... é preciso ter espirito aventureiro, ser desprendida e muita aberta para aceitar diversidades para vir para a Tanzânia. E, se preparem... O povo espera que Vc fale palavras básicas do idioma deles, o Swazili. E quem quer saber qual a companhia que usei para organizar o safari, aqui vai: SUNSET AFRICA LTD. É uma pequena agência de turismo da própria Tanzânia, competindo duramente concorrer com multinacionais inglesas, americanas, indianas, alemãs, etc. Tentam fazer um bom trabalho e me pareceram honestos. Tivemos reclamação com relação ao guia e eles deram o retorno das ações corretivas. Eu acho importante contratá-los para, desta forma, ajudar no progresso do próprio país. E, além de tudo, das 3 ou 4 agências para quem mandei e-mail questionando sobre os pacotes, a SUNSET AFRICA LTD foi a única que respondeu.
Esta viagem parece não ter fim... O trânsito perto de Dar está caótico. Ninguém respeita nada. E as rodo moças –que distribuem as balinhas (chamadas PIPI aqui), refrigerantes e bolachinhas- colocam suas cabeças para fora e negociam com os outros motoristas uma chance de entrar na sua frente. Muito engraçado...
Este relato está longo... Ainda bem que todos têm o livre arbítrio de lê-lo ou não... Espero não tê-los aborrecidos. Eu continuo feliz e em harmonia com o Universo!
ALEGRIAS.