15/07/2012
Estou no ônibus para Arusha. Comprei minha passagem na melhor classe disponível e constato agora que isto não tem o menor significado. Bem... não é esta a interpretação correta. A “melhor classe” –dentro dos padrões da Tanzânia- é sim um pouco melhor do que os ônibus que carregam os sem-terra no nosso querido País. Se comparo com os demais ônibus estacionados neste Terminal tão caótico e sem qualquer estrutura percebo que –SIM- meu ônibus é “semi luxo”. O motorista do taxi que eu contratei ontem à noite na porta do hotel é muito educado, gentil e tem um carro limpo e moderno. Quando entrou no portão do terminal, logo um homem veio correndo atrás do carro. O estacionamento não tem asfalto, faixas no chão de terra para marcar as vagas (...estou esperando muito!!!), cobertura. Fiquei assustada porque logo percebi que não acharia meu ônibus a tempo se me metesse sozinha no caos do terminal. Olho desamparada para o motorista do taxi, num pedido sem palavras de “socorro”. Ele fala pouco Inglês mas logo me tranquiliza...”I´ll take you to your bus”. Foi difícil para ele encontrar meu ônibus. Só me largou quando me deixou na porta do ônibus onde TODOS achavam que tinham prioridade. Está tudo bem agora... Vim para a Tanzânia e quero sim conhecer a TANZÂNIA. Não consigo admitir vir para um país pobre na África só para turismo. Fazendo de conta que a pobreza não existe. Assumindo uma de superior e de falsa rica. A riqueza de cada um está na sua alminha.... (“Calminha alma minha.. Vc tem muito prá aprender”) E –quem sabe- o povo da Tanzânia seja mais rico do que eu... No guichê de compra de passagens ganhei a poltrona # 17 na janela. Isto não quer dizer nada... O moço à porta do ônibus mandou-me para a 23. Estou sentada ao lado de uma moça gorda, que ocupa o assento dela e parte do meu e todo o apoio de braço. Que, absolutamente, não fala Inglês. Eu continuo com o meu escasso “Jambo” e “Asante”. Ah... acrescentei mais uma: “KARIBU” (= De nada, ou seja bem vindo). Estou literalmente trancada neste assento na janela. Está difícil achar espaço para teclar no meu netbook (que, absolutamente, não combina com o cenário). O ar condicionado funciona!!! BINGO! E tem serviço de bordo... Acabei de ganhar uma balinha. E vi que trouxeram para dentro do ônibus refrigerantes gelados. Ontem, naquele mercado de frutas, comprei mexerica, maça, pera, manga (D E L I C I O S A S) e um pacote com tâmaras em conserva. E trouxe do Brasil minha saladinha de frutas secas + castanhas. O ônibus deve parar em algum lugar para necessidades básicas. Conto depois...
Mas sim... a pobreza é feia. É feia porque é desorganizada, suja, sem estrutura, sem cultura. É feia porque desperta sentimentos ambíguos dentro de mim, classe média de um País que faz parte do BRICS!!! Percebo claramente hoje que amei a Índia desde meu primeiro contato porque entrei nesse País pela “porta da espiritualidade”. E entendo porque algumas pessoas odeiam a Índia e se propõem a nunca mais lá voltar. Para mim –e percebam, pelo amor de Deus, que isto é absolutamente pessoal- não tem sentido ir para países desenvolvidos se quero continuar meu crescimento pessoal. Se quero parar de viver num mundo de ilusões e negando o que é feio e pobre. Ou me negar a mudar o CONCEITO de feio e pobre... É simplesmente uma questão de escolhas... Isto me mostra que, sim, posso fazer coisas para contribuir com a mudança... para melhor.
A paisagem da minha janela faz-me sentir saudades do verde exuberante do nosso Pais.
Vou parando por aqui... Vou curtir a viagem. Estou bem... estou tranquila e me sinto segura. O conforto fica para depois, quando eu estiver na Austrália.
ALEGRIAS!!
Cheguei em Arusha... Não foram 9 horas e sim 11... Ufaa!! O “ar condicionado funcionando” foi uma mera ameaça. Mas não estava calor... E minha janela abria sozinha e eu tinha um vento forçado no meu rosto.
E a paisagem continuava feia e seca... Campos e campos de milho secos, sem vida... Sujeira, crianças brincando nos quintais de terra... Mulheres carregando baldes de água na cabeça, caminhando longe para ter acesso a uma torneira. Mas, no meio desta falta de vida, as cores das roupas das mulheres sempre sobressaem pelo colorido. A cada parada do ônibus, pessoas corriam para vender ora laranjas, ora tomates e cebolas, ora biscoitos, etc. Eles não gostam de serem fotografados. Então não esperem muitas fotos. A parada oficial num restaurante de estrada foi tranquila. O banheiro é razoavelmente limpo... Só não comi... Me perdi no meio do cheiro de churrasco de não sei o que... E, na minha opção como vegetariana, fiquei sem opção. Interessante que passei o dia só com poucas frutas e água. E deu certo.
De repente comecei a ver BAOBÁS... Me encantei... Namorei-os e... adormeci. Quando acordei, parecia que eu tinha atravessado uma fronteira no meio dos BAOBÁS, talvez pelas mãos do Pequeno Príncipe, e a paisagem passou a “esverdejar”... Sinal claro de água... E as montanhas começaram a se definir. E o clima a mudar... E a Tanzânia mudou!!! Passou a ficar mais bonita, com hortas bem organizadas (...vou descer e cuidar dessa terra....) e produtivas.
Quando, finalmente cheguei, tinha alguém com uma plaquinha com o meu nome me esperando... Confesso que dá um alivio.... E me trouxe para um hotel bem confortável, com uma cama charmosa com mosquiteiro. Para quem procura indicação, o nome do hotel é LUSH GARDEN HOTEL. Aqui está hospedado um grupo de italianos que veio fazer um trabalho de prospecção de água e criação de poços para atender uma grande parte da população que precisa andar de 5 a 6 kms para trazer, na cabeça, um balde com 20 lt de água. Dizem que é difícil encontrar água realmente potável... E que o governo não colabora muito em montar o sistema de distribuição e tratamento.
Fato típico de hoje: um jovem negro aqui do hotel já se ofereceu para voltar comigo para o Brasil. Quer que eu prometa que eu venho busca-lo antes de eu ir embora. Sinto muito decepcionar meus fãs brasileiros.... kkkkk.... Brincadeiras à parte... o que eu represento para eles??? A liberdade e uma vida melhor?? Ou, como comentou uma amiga: "a falta de perspectivas é tão grande que eles se oferecem como mercadorias"
Estou em paz... Estou feliz... O vento no meu rosto durante a viagem de ônibus me dá a certeza de que fiz a escolha certa. Estou no lugar certo. É aqui que eu devia estar.
ALEGRIAS!!
Estou no ônibus para Arusha. Comprei minha passagem na melhor classe disponível e constato agora que isto não tem o menor significado. Bem... não é esta a interpretação correta. A “melhor classe” –dentro dos padrões da Tanzânia- é sim um pouco melhor do que os ônibus que carregam os sem-terra no nosso querido País. Se comparo com os demais ônibus estacionados neste Terminal tão caótico e sem qualquer estrutura percebo que –SIM- meu ônibus é “semi luxo”. O motorista do taxi que eu contratei ontem à noite na porta do hotel é muito educado, gentil e tem um carro limpo e moderno. Quando entrou no portão do terminal, logo um homem veio correndo atrás do carro. O estacionamento não tem asfalto, faixas no chão de terra para marcar as vagas (...estou esperando muito!!!), cobertura. Fiquei assustada porque logo percebi que não acharia meu ônibus a tempo se me metesse sozinha no caos do terminal. Olho desamparada para o motorista do taxi, num pedido sem palavras de “socorro”. Ele fala pouco Inglês mas logo me tranquiliza...”I´ll take you to your bus”. Foi difícil para ele encontrar meu ônibus. Só me largou quando me deixou na porta do ônibus onde TODOS achavam que tinham prioridade. Está tudo bem agora... Vim para a Tanzânia e quero sim conhecer a TANZÂNIA. Não consigo admitir vir para um país pobre na África só para turismo. Fazendo de conta que a pobreza não existe. Assumindo uma de superior e de falsa rica. A riqueza de cada um está na sua alminha.... (“Calminha alma minha.. Vc tem muito prá aprender”) E –quem sabe- o povo da Tanzânia seja mais rico do que eu... No guichê de compra de passagens ganhei a poltrona # 17 na janela. Isto não quer dizer nada... O moço à porta do ônibus mandou-me para a 23. Estou sentada ao lado de uma moça gorda, que ocupa o assento dela e parte do meu e todo o apoio de braço. Que, absolutamente, não fala Inglês. Eu continuo com o meu escasso “Jambo” e “Asante”. Ah... acrescentei mais uma: “KARIBU” (= De nada, ou seja bem vindo). Estou literalmente trancada neste assento na janela. Está difícil achar espaço para teclar no meu netbook (que, absolutamente, não combina com o cenário). O ar condicionado funciona!!! BINGO! E tem serviço de bordo... Acabei de ganhar uma balinha. E vi que trouxeram para dentro do ônibus refrigerantes gelados. Ontem, naquele mercado de frutas, comprei mexerica, maça, pera, manga (D E L I C I O S A S) e um pacote com tâmaras em conserva. E trouxe do Brasil minha saladinha de frutas secas + castanhas. O ônibus deve parar em algum lugar para necessidades básicas. Conto depois...
Mas sim... a pobreza é feia. É feia porque é desorganizada, suja, sem estrutura, sem cultura. É feia porque desperta sentimentos ambíguos dentro de mim, classe média de um País que faz parte do BRICS!!! Percebo claramente hoje que amei a Índia desde meu primeiro contato porque entrei nesse País pela “porta da espiritualidade”. E entendo porque algumas pessoas odeiam a Índia e se propõem a nunca mais lá voltar. Para mim –e percebam, pelo amor de Deus, que isto é absolutamente pessoal- não tem sentido ir para países desenvolvidos se quero continuar meu crescimento pessoal. Se quero parar de viver num mundo de ilusões e negando o que é feio e pobre. Ou me negar a mudar o CONCEITO de feio e pobre... É simplesmente uma questão de escolhas... Isto me mostra que, sim, posso fazer coisas para contribuir com a mudança... para melhor.
A paisagem da minha janela faz-me sentir saudades do verde exuberante do nosso Pais.
Vou parando por aqui... Vou curtir a viagem. Estou bem... estou tranquila e me sinto segura. O conforto fica para depois, quando eu estiver na Austrália.
ALEGRIAS!!
Cheguei em Arusha... Não foram 9 horas e sim 11... Ufaa!! O “ar condicionado funcionando” foi uma mera ameaça. Mas não estava calor... E minha janela abria sozinha e eu tinha um vento forçado no meu rosto.
E a paisagem continuava feia e seca... Campos e campos de milho secos, sem vida... Sujeira, crianças brincando nos quintais de terra... Mulheres carregando baldes de água na cabeça, caminhando longe para ter acesso a uma torneira. Mas, no meio desta falta de vida, as cores das roupas das mulheres sempre sobressaem pelo colorido. A cada parada do ônibus, pessoas corriam para vender ora laranjas, ora tomates e cebolas, ora biscoitos, etc. Eles não gostam de serem fotografados. Então não esperem muitas fotos. A parada oficial num restaurante de estrada foi tranquila. O banheiro é razoavelmente limpo... Só não comi... Me perdi no meio do cheiro de churrasco de não sei o que... E, na minha opção como vegetariana, fiquei sem opção. Interessante que passei o dia só com poucas frutas e água. E deu certo.
De repente comecei a ver BAOBÁS... Me encantei... Namorei-os e... adormeci. Quando acordei, parecia que eu tinha atravessado uma fronteira no meio dos BAOBÁS, talvez pelas mãos do Pequeno Príncipe, e a paisagem passou a “esverdejar”... Sinal claro de água... E as montanhas começaram a se definir. E o clima a mudar... E a Tanzânia mudou!!! Passou a ficar mais bonita, com hortas bem organizadas (...vou descer e cuidar dessa terra....) e produtivas.
Quando, finalmente cheguei, tinha alguém com uma plaquinha com o meu nome me esperando... Confesso que dá um alivio.... E me trouxe para um hotel bem confortável, com uma cama charmosa com mosquiteiro. Para quem procura indicação, o nome do hotel é LUSH GARDEN HOTEL. Aqui está hospedado um grupo de italianos que veio fazer um trabalho de prospecção de água e criação de poços para atender uma grande parte da população que precisa andar de 5 a 6 kms para trazer, na cabeça, um balde com 20 lt de água. Dizem que é difícil encontrar água realmente potável... E que o governo não colabora muito em montar o sistema de distribuição e tratamento.
Fato típico de hoje: um jovem negro aqui do hotel já se ofereceu para voltar comigo para o Brasil. Quer que eu prometa que eu venho busca-lo antes de eu ir embora. Sinto muito decepcionar meus fãs brasileiros.... kkkkk.... Brincadeiras à parte... o que eu represento para eles??? A liberdade e uma vida melhor?? Ou, como comentou uma amiga: "a falta de perspectivas é tão grande que eles se oferecem como mercadorias"
Estou em paz... Estou feliz... O vento no meu rosto durante a viagem de ônibus me dá a certeza de que fiz a escolha certa. Estou no lugar certo. É aqui que eu devia estar.
ALEGRIAS!!
Nenhum comentário:
Postar um comentário