sábado, 11 de agosto de 2012

21/07/2012



















Hoje é o meu penúltimo dia na Tanzânia. Neste momento estou no ônibus que me leva de volta para Dar es Salaam. Passei os últimos 6 dias em ARUSHA, uma cidade menor do que Dar.
Repito... a Tanzânia é um pais pobre, feio e eu mudei sim minha percepção e meus conceitos sobre a pobreza e sobre beleza. O povo não atende “nossos” padrões de beleza para a raça negra. Nosso conceito de beleza dos negros está muito ligado à beleza estonteante das mulatas que desfilam nas nossas escolas de samba. Mas eu garanto que é um povo alegre, gentil e educado dentro dos padrões de educação na Tanzânia. Somente 10% da população em Arusha (com população estimada em 1 milhão) têm água corrente nas residências. Os que vivem na área urbana têm que buscar água em torneiras públicas ao longo das vias públicas, ou compram águas de ambulantes que transitam aos montes pelas ruas. Os que vivem na zona mais afastada têm que caminhar muito, carregando seus baldes na cabeça, para buscar água. Alguns caminham quilômetros!! Soube que, nas partes mais baixas, um poço com 25 mt de profundidade pode trazer água. Em outras áreas, pode ser necessário cavar até 200 mt de profundidade. Esta região tem o solo coberto por larvas dos inúmeros vulcões existentes aqui há milhões de anos atrás. Somente a camada superficial do solo pode ser fértil... Mesmo assim eles têm abundância de mangas, laranjas, abacates, cajus, bananas. E sisal.... Pude ver muitas fazendas de sisal. E eles exportam muito sisal para depois comprar as cordas prontas. O velho problema da economia primária dos países subdesenvolvidos. A Tanzânia é muito rica em pedras preciosas, principalmente a Tanzanite. Eu não as vi... Soube que a maioria é exportada e o dinheiro da venda não é aplicado no pais. Todos com quem conversei falam do problema da grande corrupção dos governantes. A outra grande fonte de renda deste país é o turismo. Um trekking de 6 dias no Kilimanjaro custa para o turista US$ 1.500,00 SÓ DE TAXAS PARA O GOVERNO... Fora os custos com a agência de turismo. Os parques nacionais provêm uma das maiores fonte de renda do país. Somente 10 a 15% dos jovens vão para a Universidade. E muitos daqueles que conseguem um trabalho formal são tratados como escravos (salários baixos, muitas horas de trabalho, sem qualquer benefício social). E daí a reflexão sobre “povo educado”... É preciso mudar a percepção sobre educação em cada país que visito. 
Estive em 3 parques nacionais: O do lago Manyara foi o primeiro. Este parque recebe muita água do parque Ngorongoro , onde existem crateras (que o guia acha mais apropriado chamar de “caldeira” porque estão verdadeiramente extintos) e que está 900 mt mais alto do que o Parque Manyara. Vê-se inúmeros riachos correndo e alimentando a terra que apresenta uma vegetação bem verde e mais abundante e me encantei com as enormes árvores, muito antigas e majestosas. Uma lição muito bem aprendida nestas andanças: ÁGUA É VIDA. A diferença entre a paisagem das savanas e deste parque é tão gritante que a sensação que eu tive é que estava passando num túnel do tempo e indo para outra civilização. Logo na entrada do parque veem-se uns pássaros enormes, com penas brancas que emitem abundantes sons agudos e vivem em incontáveis ninhos. É vida em abundância!!! Somos três (um rapaz da Noruega casado com a Catalina, argentina e eu) no jeep LAND ROVER, que levanta a capota para que todos possam ficar em pé e procurar e ver os animais. Temos o motorista, que é também o guia (Richard), e o cozinheiro (Dodo) que nos acompanharão pelos próximos 4 dias. Os babuínos (será esta a palavra em português para “baboons”??) nos recepcionam aos montes nos primeiros metros dentro do parque. De todos os tamanhos, com seus bebês agarrados no ventre das mães, enquanto muito novos, ou montados em suas costas quando já estão maiores e estão quase prontos para sobreviverem sozinhos. Vamos parar para nosso almoço. Recebemos uma caixa com um hambúrguer no pão, massa de panqueca sem recheio, uma banana, um suco de caixinha, uma coxa + sobrecoxa de frango assado, frio e seco. Este frango vai nos acompanhar por muitos outros almoços... rssss... (Importante acrescentar que os safaris contratados por mim são "Budget Safari". Ou seja, os mais simples. Nesta mesma área de lanche havia um outro grupo que tinha garçom devidamente vestido para tal, toalha na mesa, balde de gelo com garrafa de vinho, pratos de porcelana, taças de vidro, guardanapos... Enfim, Você pode escolher o quanto quer de conforto nos seus safaris).  Tem lindos pássaros com exuberantes asas azuis que se aproximam sem medo. Para quê alimentar os pássaros se eles têm alimento abundante na própria casa?? 
Seguimos com nosso safari e a paisagem volta a apresentar características de savana. E variadas espécies de animais começam a aparecer. Logo de cara um elefante quebrando galhos de um arbusto e se alimentando. Enorme, com suas orelhas parecendo asas, se movendo devagar e pesadamente. Logo aprendemos que elefantes dificilmente andam sozinhos. E lá aparecem outros. E depois muitas zebras, inúmeras girafas –tão graciosas e elegantes no andar-, esticando seus pescoços ainda mais para alcançar os galhos mais tenros das Acácias (sua alimentação preferida). As girafas não dormem e não deitam. Somente sentam e cochilam. Também são animais coletivos. O guia logo avista um leão deitado no meio da grama alta, comum das savanas. Entendo porque os leões gostam deste ambiente... eles se misturam e se confundem com a grama. Perfeito para um ataque silencioso e de surpresa às presas abundantes nos parques. Vemos muitas “wild beasts” (alguém sabe a tradução para este nome??? Eu não consigo identifica-los no meu parco conhecimento do mundo animal...). Ah... antes que eu me esqueça: me apaixonei pelos BAOBÁS... Enormes, gordos, sem folhas, totalmente pelados (é inverno) ... ameaçadores algumas vezes. Lindos!!! E fomos nos aproximando do lago. Vimos pesados hipopótamos dentro do pântano. Eles não podem expor-se ao calor do sol. Sua pele é sensível ao sol. Ao contrário, lá está um crocodilo se aquecendo ao sol... E já à beira do lago milhares de flamingos e outras aves, voando soltas em bandos e formando desenhos alucinógenos no ar... Eu me deixei levar por aquele momento e voei com os flamingos, destoando algumas vezes do seu voo livre, mas voltando logo ao bando antes de despertar do sonho e me esborrachar no chão!!! (smile). 
Tão engraçado o fato de ter que parar o carro para as zebras atravessarem a rua, ou até mesmo as graciosas girafas. 
Fomos para nosso camping, As barracas estavam montadas, havia água quente no chuveiro e foi possível remover toda a poeira de um dia nas savanas. Gostoso sentir-me limpa... Hábitos arraigados que não se esquece facilmente. O Dodo, cozinheiro, havia preparado uma deliciosa sopa de pacotinho de aspargos, arroz, carne refogada, legumes refogados. Eu abri mão da carne e comi o resto com vontade. Tinha outros grupos no camping e aconteceu um show de música e dança no refeitório grande. Divertido... Fui para a barraca, ganhei um colchão fininho, um saco de dormir, coloquei minha camisola de flanela com rendinha (kkkk.... nada a ver, não é não??) e tentei dormir. Sem muito sucesso... Barulhos estranhos me mantiveram acordada... O que era vento, o que podia ser uma hiena em busca de comida ou outro animal?? Hienas são MUITO agressivas. De manhã fomos apresentadas para os outros 3 elementos do nosso grupo: um rapaz com 23 anos da Coréia do Sul SUPER ENGRAÇADO e duas meninas da Holanda. E com eles partimos para nosso segundo dia de safari. Entramos numa área de conservação do Ngorongoro e a impressão que eu tive é que estávamos num deserto. Absolutamente nenhuma vegetação, pedras pretas soltas, muita poeira... Aqui era um vulcão... o que mais esperar? Só se ve em todas as partes, ao longe e bem próximos, rebanhos de gado, de cabritos ou de ovelhas conduzidos por MASAAI´s com seus cobertores vermelhos ou xadrez, com seus altos cajados, inúmeros colares, pulseiras, tornozeleiras em miçangas coloridas. Eles se espalham nesta imensidão... Se destacam na paisagem... Estão em todos os lugares. E, ocasionalmente, ve-se algumas de suas aldeias –BOMA- montadas em círculos com suas casas feitas com lama+esterco de vaca e cobertas com capim que se aglutinam em função da fumaça das pequenas fogueiras acesas dentro das cabanas para cozinhar, aquecer e iluminar. Não é possível ficar ereto dentro das casas. Vamos combinar uma coisa?? Vou preparar um capítulo só para falar dos MASAAI´s. Aprendi um pouco sobre eles e estou surpresa como eles conseguem manter suas tradições, apesar dos apelos do mundo moderno. E muito, mas muito feliz de verdade em senti-los felizes e saber que é possível sobreviver com tão pouco e em harmonia com a natureza. Me pareceu uma sintonia perfeita entre homens e natureza. 
Nosso destino é o Parque Nacional Serengeti. É enorme... 18.000 km2 (... eu acho). Vimos muitos, muitos animais. É maravilhoso ver os animais nos seus habitats naturais, em enormes bandos, livres. Vimos leopardo que tinha acabado de matar um impala e o arrastado para o alto de uma árvore para não ter que dividi-lo com ninguém. Leopardos são individualistas... Vimos um grupo de leoas que estava descansando ao redor de uma “wild beast” que tinham acabado de matar. Uma delas se deliciava com a caça e tinha a boca e ao redor completamente suja de sangue. E os abutres já estavam rodeando o espaço, esperando sua parte. E os chacais, abusados, se insinuando e querendo chegar perto. Só as leoas caçam... Os machos cuidam da segurança. Vimos um bando de leoas com seus filhotes brincando como crianças pequenas e felizes, subindo em troncos de árvores caídos no chão... Vimos um leão e uma leoa se acasalando e o rugido satisfeito do leão. E ali perto o leão perdedor, largado no meio da grama e dormindo. Vimos bebês de girafas, de búfalos, de leões, de elefantes, de hienas, de crocodilos, de macacos, de babuínos, de hipopótamo... Simplesmente demais. Tivemos muita sorte nos safaris. Dos “Big Five” (leão, elefante, búfalo, leopardo, rinoceronte) só não vimos o rinoceronte... O buscamos em todos os parques e não o vimos... Eles foram muito caçados por causa da sua presa e existem em menor número hoje em dia. Impalas existem aos milhões e são presas fáceis para os predadores. Uma observação: o rabo da zebra também tem listras branco e preta até 1/3 do seu tamanho. Depois se abrem como rabos de cavalos. 
Nesta noite dormimos num outro acampamento, com quase nenhuma estrutura (era um acampamento público) e eu tinha uma outra barraca cuja parte de cima não era a apropriada para a parte de baixo e entrava vento demais. Faz frio à noite e eu ouvi a risada da hiena que andava ali próxima e dormi muito pouco. Por causa do nosso encantamento da natureza, chegamos só à noite no acampamento e foi um drama montar barracas no escuro total...Banho frio... Comida OK preparada pelo Dodo. Uma coisa muito legal destas aventuras é compartilhar culturas. Ouvir histórias de muitas partes do mundo e suas diferentes percepções de fatos em comum. Adoro isto!!! É de uma riqueza sem preço. E que ninguém pode roubar.
Acordamos às 6:00 hr, ainda escuro e muito frio para nos presentearmos com o nascer do sol. Parece ser OBRIGATÓRIO. É tão lindo que tem que ser proibido perder. E a vida animal é muito intensa a esta hora da manhã. A corrida de um bando de zebras contra os raios do sol a nascer é indescritível. E continuamos em busca do nosso rinoceronte... “Vamos passear na savana enquanto o rino não vem....”. E aproveitar e ver outro leopardo pulando nos galhos da árvore... Visão distante que fica mais clara com o zoom das câmeras fotográficas. Eu queria muito ver os leões no seu habitat natural... E de repente os vi de monte... Eu achava que seria tão difícil... E torna a parar o carro para dar passagem para um bando de leoas. Divertido, né? Hora de voltar para o acampamento, fazer um brunch, desmontar as barracas, colocar toda a bagagem sobre o teto do LAND ROVER e seguir viagem rumo à cratera (..ou será mesmo a caldeira??) Ngorongoro. Vamos descer 620 mt para chegar no fundo. Eu havia entendido que dentro da cratera, que é no formato de um ovo e mede, aprox.., 9 km X6 km, haveria muita vegetação. Mas é também uma savana. Rica em vida animal. Tem bastante água, um grande lago e –como água é VIDA- é isto que vemos em abundância... Existem pequenas áreas com bosques, muitas acácias e, consequentemente, muitas girafas e elefantes. Vimos duas leoas atacando um bando enorme de zebras e “wild beasts” que corriam em disparada para todos os lados. E muita poeira no ar... Vimos um leão jovem que estava ferido nas costas e deitado bem na beira da estrada, cansado de alguma luta recente... E, de novo, um bando de 6 leoas deitas ao redor de um recém caçado búfalo. Só descansando... Deve ter sido um trabalho árduo... o búfalo era enorme.
Fomos mais cedo para nosso acampamento desta noite. Mais fácil montar as barracas enquanto ainda está claro. Minha barraca continua “desparelhada”... E sei que faz muito frio neste acampamento porque estamos a 2500 m de altitude. Ai, ai, ai... Chuveiro com água bem quente, boa estrutura neste camping “privado”. E daí veio um caso bem legal... Vieram me chamar porque havia elefantes ali bem perto. Caminhei uns 20 mts e lá estavam 2 grandes elefantes e um filhote. Eu estava a uns 4 metros dele e o guarda do parque chegou me dando uma séria bronca porque tinha me avisado para eu não chegar perto. Eu respondi que nem estava perto e nem tinha sido avisada de nada. Minha amiga holandesa , que havia chegado muito perto e foi ameaçada pelo elefante, veio em minha salvação explicando que havia sido ela quem havia sido advertida. “They are not Indian elephantes. They are Africans!!” Senti-me uma criança levada sendo advertida por ter cometido uma imperdoável travessura. Os elefantes vieram em direção às barracas, todos foram se afastando e lá foram eles em direção à caixa d´água. Beberam água com suas enormes trombas, a mamãe elefante pegava água e colocava dentro da boca do filhote. Sem pressa... Com delicadeza. Como cabe a elefantes educados do Este da África. Jantamos e o frio se acentuando. Terminamos o jantar e havia um delicioso “camp fire” esperando por nós. Pessoas de várias partes do mundo sentadas ao redor e nosso amigo da Coréia do Sul ensinando-nos a cantar a Canção dos Parques Nacionais da Tanzânia. Foi muito divertido. E graças a esta fogueira, consegui aquecer o corpo e ir para a barraca, me meter no saco de dormir, enrolar o pé num agasalho de nylon, me enrolar no meu chalé muito quentinho da Índia e me preparar para a temperatura de 6 graus e muita umidade durante toda a noite. Sem coragem de me mexer para não correr o risco de me esfriar... Ao amanhecer, o camping estava encoberta por uma densa neblina e muito frio. Desmontamos as barracas e pegamos o caminho de volta para a cidade de ARUSHA. Com paradas no caminho para fotos, ainda alguns animais, mas tudo passou a ser rotina. Como eu ouso não mais me interessar por uma girafa, ou por um elefante??
Umas dicas finais... é preciso ter espirito aventureiro, ser desprendida e muita aberta para aceitar diversidades para vir para a Tanzânia. E, se preparem... O povo espera que Vc fale palavras básicas do idioma deles, o Swazili. E quem quer saber qual a companhia que usei para organizar o safari, aqui vai: SUNSET AFRICA LTD. É uma pequena agência de turismo da própria Tanzânia, competindo duramente concorrer com multinacionais inglesas, americanas, indianas, alemãs, etc. Tentam fazer um bom trabalho e me pareceram honestos. Tivemos reclamação com relação ao guia e eles deram o retorno das ações corretivas. Eu acho importante contratá-los para, desta forma, ajudar no progresso do próprio país. E, além de tudo, das 3 ou 4 agências para quem mandei e-mail questionando sobre os pacotes, a SUNSET AFRICA LTD foi a única que respondeu.
Esta viagem parece não ter fim... O trânsito perto de Dar está caótico. Ninguém respeita nada. E as rodo moças –que distribuem as balinhas (chamadas PIPI aqui), refrigerantes e bolachinhas- colocam suas cabeças para fora e negociam com os outros motoristas uma chance de entrar na sua frente. Muito engraçado...
Este relato está longo... Ainda bem que todos têm o livre arbítrio de lê-lo ou não... Espero não tê-los aborrecidos. Eu continuo feliz e em harmonia com o Universo!
ALEGRIAS.

Nenhum comentário: