sábado, 11 de agosto de 2012

Minha convivência com os MAASAI´s

22/07/2012

Bem, como prometi, este relato vai ser sobre o povo MAASAI.
Povo original da Etiópia e da Somália que foram migrando para a Tanzânia em busca de pasto para os seus rebanhos de gado, ovelhas e cabritos. E em busca de paz. A Tanzânia é bastante pacífica. Os Maasais têm um biótipo bem característico: altos e muito magros. Andam com o corpo coberto sempre por um cobertor xadrez, azul ou vermelho jogado sobre uma túnica que cobre o corpo. As mulheres também cobrem os corpos com uma túnica colorida enrolada e cobertores azuis ou xadrez. Eles se enfeitam muito com colares, vários brincos longos, pulseiras, tornozeleiras de miçangas coloridas. As mulheres sempre têm a cabeça totalmente raspada, enquanto os homens podem ter cabelos longos. Não vi qualquer Massai com cabelos longos. Também tinham as cabeças raspadas. 
Nas minhas andanças pelo mundo, eu procuro, sempre que possível, conhecer um pouco da origem dos povos nativos. E sempre me entristeço ao ver a perda da cultura, das tradições, do folclore, do sentido de vida. Entristeci-me muito quando visitei alguns lugares onde vivem os Aborígenes, na Austrália. Depois que perderam boa parte da sua cultura, muitos deles se perderam também. E vivem pelas praças e pelas ruas embriagados. E, incrivelmente, os MAASAI conseguem manter suas tradições vivendo perto da civilização. Será porque vivem perto de um povo que também tem tão pouco e, com isto, não se sentem incomodados com a “riqueza cultural” dessa tribo??
Durante os dias de safari, paramos numa aldeia (= BOMA) dos Maasai. E logo um anfitrião da aldeia, falando Inglês, veio nos receber e negociar o preço para nossa entrada. 20.000 Shilling da Tanzânia por pessoa!!! (aprox.. US$ 15,00). Para permitir uma comparação, a passagem de ônibus de Dar para Arusha custou 28.000 shillings. Para um trecho de uns 500 km. Ou seja, muito caro!! E, depois que pagamos, podíamos fotografar à vontade, perguntar o que queríamos... Antes de entrarmos na BOMA, os homens fizeram apresentação de uma dança e, em seguida, as mulheres. Daí pudemos entrar. Lá dentro eles fizeram a apresentação do que é típico e famoso sobre eles: a capacidade de dar pulos muito altos. Tanto os homens como as mulheres. E o anfitrião nos dividiu em grupos de 2 e indicou um guia, também falando Inglês, para nos acompanhar dentro da aldeia. Entramos numa morada. Em formato oval, com a entrada em espiral, de teto baixo –não é possível ficar ereto dentro dela- feita de barro e com esterco de vaca e galhos finos de madeira muito resistente. O teto é coberto com capim bem espesso, que se aglutina muito bem com a fumaça do fogo que acendem dentro das suas casas. A fogueira, feita somente com três pedras em formato de um triângulo, serve para aquecer, cozinhar, iluminar, afastar insetos e animais. E fazer fumaça... Suas camas também são feitas com galhos bem resistentes, a uma altura de uns 0,20cm do chão e cobertas com couro. Existem dois ambientes: um quarto para o pai dormir com os filhos e o outro para a mãe dormir com as filhas. E, num outro canto, um lugar para guardar alguns utensílios. Principalmente as vasilhas para pegar água.
Sentamos num banquinho de couro e o guia explica que os Maasai´s são polígamos. O número de mulheres vai depender de quantas vacas, ovelhas, cabritos ele tem. Bebês mulher são bem vindas porque, ao casar, os pais recebem vacas como dote. Eles comem muita carne e bebem diariamente leite misturado com sangue das vacas. Com suas flechas, furam a jugular e de lá tiram o sangue. Quando estão nas suas andanças, bebem o sangue direto da jugular. Isto lhes dá muita saúde e energia para caminhar quilômetros e quilômetros em busca de água e bom pasto para os seus rebanhos. Nos seus grandes pés usam sandálias feitas de pneus num formato côncavo que lhes facilita o caminhar. Acreditam num único Deus ( ENKAI) que está no céu. Acreditam que Deus lhes deu o gado para sobrevivência e, por isto, roubam gados dos outros. Quase não comem vegetais e frutas porque, segundo o guia deste Boma, são comidas para os Deuses. Um outro guia complementou explicando que a terra deve ser guardada para pasto. E eles nem mesmo enterram seus mortos, para não "macular" a terra. Também não os incineram. Deixam os corpos para serem comidos pelos animais carnívoros e aves de rapina. Eles são semi-nômades. Os homens saem em longas caminhadas com seus rebanhos e as mulheres ficam nas bomas, cuidando de tudo e os homens voltam depois de algum tempo. Quando saímos desta casa, havia uma exposição das peças feitas por eles com miçangas. Aqueles colares que parecem um colarinho largo que desce desde o pescoço até quase a altura dos seios. Pulseiras, brincos, tornozeleiras. Coloridas, alegres. Eles aceitam US dólares.... As mulheres tentam e tentam te vender suas peças. Se Você diz não, abaixam o preço... As mulheres se enfeitam bastante. O guia diz que elas se fazem bonitas. Os homens também se enfeitam. Em seguida saímos um pouco de dentro da aldeia, vamos até uma cabana que ele nos apresenta como o “Kindergarten”. É só colocar o pé dentro da cabana e cerca de 20 crianças começam a cantar. Afinados, ensaiados... E um professor senta-se ao lado deles. E lá também tem uma caixinha para doações...
Saímos desse Boma super felizes... Achando que tínhamos visto verdadeiros MASAAI´s.
O melhor estava por vir... Eu tinha contratado um dia só cultural que seria passado com os Masaai´s. O meu último dia em Arusha. E, finalmente, o dia chegou...
Um guia de Arusha me pegou no hotel e fomos para o terminal de ônibus e pegamos uma van que faz o transporte comum das pessoas. Nosso destino: LONGIDO. Vila ao norte de Arusha e perto da fronteira da Tanzânia com Kênia. Capacidade máxima: 8 pessoas. Capacidade real:11 pessoas. Rssss. Viagem curta: 45 minutos.
(Um parêntese: as fronteiras são muito próximas e vi caminhões bonitos e novos nas estradas e entendi que o transporte internacional entre os países da África é grande)
Chegamos numa vila com casas semi acabadas, com vielas de areia fofa, sem qualquer planejamento. Paramos numa casa onde um senhor nos recebeu super bem e nos apresentou o ELY. O Ely é um Masaai Moderno. Seu pai abandonou a tribo e ele já nasceu um Masaai Moderno. Ele sabe tudo dos costumes, tradições, cultura. E começamos nossa longa caminhada em direção às montanhas ao longe. E o Ely vai parando e me mostrando algumas plantas que são medicinais. Me mostra exatamente como elas são usadas. A primeira ele esfrega a folha na palma da mão, depois a espreme e sai um líquido denso verde bem escuro. Ele explica que aquele líquido é um ótimo cicatrizante e cura dor. Levanta a camisa (Ely veste calça jeans, camisa estampada de algodão e sandálias tipo papete) e me mostra cicatrizes de cortes feitos paralelamente. Explica que uma vez teve uma dor de estomago muito forte e não tinha como leva-lo para o hospital. Sua mãe o levou para a BOMA e a “mãe curadora” o tratou com aquela erva. E ele se curou. Caminhamos mais um pouco, ele para de novo e retira um espinho de um arbusto, com, aprox.., 6 cm de comprimento. É muito pontiagudo e resistente. Com ele os Masaai´s fazem os furos nas orelhas e também fazem um furo na bochecha das crianças pequenas o qual deve permanecer sempre aberto para atrair as moscas e desviá-las dos olhos das crianças que não sabem ainda afastá-las. Este espinho também pode ser usado como agulha. Explica ainda que é hábito fazer cortes grandes nas orelhas para colocar os enormes brincos. Tudo isto a sangue frio, lógico. Os Masaai´s são conhecidos como um povo muito forte. Todos os meninos são circuncisados ao redor dos 16 anos numa cerimônia muito importante, nas montanhas. Mulheres não participam. Os meninos não podem chorar. Nem mesmo recuar a perna, numa demonstração de dor. Depois desta cerimônia, eles se vestem com túnicas pretas, pintam os rostos de preto e branco e vão viver longe do BOMA por anos, no meio dos arbustos, responsáveis por arrumar sua própria sobrevivência. Passam a ser GUERREIROS. Cruzamos com vários nas estradas. Alguns pedem dinheiro para serem fotografados com os turistas.
Pergunto como os Masaai´s conseguem ter os dentes tão brancos. Logo Ely para, sobe num galho mais alto de uma árvore, corta um galho de uns 60 cm, desce da árvore. Começa a descascar com as mãos a parte superior do galho, tira suas folhas e logo a extremidade do tronco se transforma em várias fibras, como se fosse uma escova de dente na vertical. Ele me passa um pedaço pronto e me sugere experimentar. E, juro, funciona!!! Cruzamos com um arbusto de “maça de Sodoma”, Ely pega um fruto mais maduro, faz um furo com o espinho pontiagudo e espirra um líquido amarelo. Segundo ele, é um ótimo remédio para doenças do peito... E continuamos nossa caminhada na areia fofa, a temperatura começa a aumentar. Vejo uma pequena BOMA à nossa frente. Passamos direto, Ely me mostra que a cerca é feita com galhos de um arbusto que vai me mostrar no caminho que é super resistente e que os animais não conseguem ultrapassá-la. Vejo debaixo de uma árvore um filhote de cabrito semi morto. Nos dirigimos para lá e Ely conversa com um Masaai mais idoso sentado debaixo de uma árvore na língua deles. A sociedade Masaai é paternalista e os mais velhos são muito respeitados. Ele responde que aquele filhote está doente do cérebro e eles estão esperando sua morte para comê-los. Passamos reto pelo BOMA... Começamos nossa caminhada em subida em direção à montanha. Ely vai me levar a uma caverna e a uma cachoeira. Subida mais íngreme na terra fofa... Ufaaa.... Cruzamos com duas meninas Masaai carregando lenha na cabeça, presas com um elástico na testa. Seus rostos são lindos. Elas permitem serem fotografadas. Na subida passamos por um grupo de mulheres Masaai lavando algumas roupas e outros utensílios, mas elas não querem ser fotografadas. É fácil respeitar a vontade delas. Guardo a lembrança no coração... Berros de cabritos, mugido de vacas. Eles estão ao redor. Tenho que parar para descansar... “Pole Pole”, diz Ely (Devagar, em swahili). Continuamos e ouço o Ely falar mais alto com alguém. Ele está pedindo permissão para chegar perto do grupo de Masaai que está na caverna. Chama-me para acompanha-lo. E lá está um grupo de homens e crianças. Um jovem está descascando uns troncos com uns 0,40 cm de comprimento, tem uma panela numa pequena fogueira cheia com água e coloca os troncos lá. Ely explica que ele está preparando um medicamento. Ele me olha muito desconfiado. Estou com óculos escuros e boné. Peço permissão para fotografá-lo. Ele concorda. Olha ao redor. Ao seu lado tem uma cama de folhas e sobre ela várias patas frescas de carneiro. Noto que em quase todos os troncos das árvores existem marcas paralelas cavadas a faca. Ely me explica que os Masaai´s fazem estas marcas para registrarem quanto tempo ficaram na montanha. Ele me chama para caminhar mais um pouco e entramos numa caverna e no fundo tem um tipo de armário feito com galhos de árvores e coberto com folhas. Um homem Masaai está com um facão na mão cortando carne fresca de carneiro. Na parede de pedra tem uma pintura de um símbolo que parece um escudo. Tem uma criança pequena de uns 3 anos. Ele me recebe com um sorriso de boas vindas. Todos os adornos dos Masaai´s que estão aqui estão pendurados nuns troncos atrás deste armário. E sobre o armário, em cima das folhas, tem outros cortes de carne. O rapaz que estava descascando os tronquinhos para colocar na água fervente entra e vem buscar um pedaço de carne. É tudo muito diferente e mágico. Eu assumo uma atitude de respeito. Sento-me numa pedra e só observo... Logo um menino com uns 9 anos se encanta com minha câmera fotográfica. Quer tirar fotos. Eu ensino a ele como focar e ele dá risada quando vê o resultado das suas fotos. Ele se encanta. Tem um pequeno espelho pendurado no seu pescoço. Tira fotografias bem focadas. Está bem feliz!! Peço a máquina de volta, saio da caverna e voltamos a subir mais um pouco a montanha. Vemos uma família inteira de macacos pulando nas árvores. A temperatura está muito agradável nesta altitude. As vacas bebem água no riacho. A subida fica mais íngreme e eu decido que não quero ver a cachoeira... Mesmo porque tem pouca água. Prefiro ficar com os Masaai´s. Passamos por outra caverna similar a anterior. Vazia... Voltamos para a primeira caverna. Eu me sento numa pedra e fico quieta, observando. Esperando ser aceita. O bebê de 3 anos se recusa a chegar perto de mim... Tiro os óculos escuros, tiro o boné, solto meus cabelos e sorrio para ele. Ainda há muita desconfiança... O pai pergunta se eu não tenho alguma comida para dar para ele. Lembro que trouxe um pão doce com canela. Tiro-o da mochila, divido com o pequeno e logo chegam os outros garotos para compartilhar. Daí o pequeno vai se chegando, se chegando, senta ao meu lado. As moscas o rodeiam. Pego um galho com folhas e fico afastando as moscas do seu pão doce e do seu rosto. Coloco-o sentado ao meu lado. O rapaz que cuida do fogo e que já juntou os pés do cabrito naquela sopa, passa a me olhar com um sorriso. Já não sou mais a estranha... Continuo sentada em silêncio, observando. O momento é sagrado. Percebo que aquilo é real sim... Não é algum filme como o que trabalhei junto com o Hector Babenco na selva amazônica. E penso que a vida pode sim ser vivida de várias formas. Até desta forma tão básica... tão natural. A natureza provendo tudo.... quase tudo... As mulheres não vêm para a montanha, não participam destes rituais. Assim como não participam de um grande ritual na “Montanha de Deus”, localizada no nordeste da Tanzânia, onde fazem sacrifícios de carneiros para ENKAI. Os homens não comem na frente das mulheres. Acreditam que se o fizerem, isto pode trazer-lhes má sorte ou, até mesmo, dor de estomago. Um pai pede para eu tirar uma foto dele com seu filho. Levanto, chego perto deles, fotografo. Ele quer minha máquina para fotografar o grupo de garotos. Ele não consegue entender que tem que focar antes de fotografar... Eles dão risada. Ely pega um pedaço de carne fresca, espetada num espeto de galho de árvore e o coloca à beira de um fogo baixinho. Uma imagem em tamanho miniatura do famoso churrasco “fogo no chão”. Daqui a pouco pega uma faca e começa a fatiar a carne e comê-la. Ely já me explicou que os Masaai´s tradicionais o aceitam, mas não o respeitam... Não acham que ele sabe mais porque vive na civilização. Ao contrário... Continuam tirando foto, brincando com a máquina. Sou parte deles por este breve instante. Estou agradecida e feliz. Ficamos lá cerca de ½ hora, compartilhando... E daí nos vamos. Descemos a montanha, caminhamos na areia fofa e entramos na BOMA. Sei que a primeira tenda do lado direito da entrada é da primeira esposa. A primeira da esquerda é da segunda esposa... E assim por diante. Ely pede autorização para entrar numa tenda. A mulher concorda... Entramos. Ela enfeitou sua cabana com vidros colados no esterco da vaca enquanto ainda úmido o que criou uma decoração graciosa. Ela tem um bebê no colo e outra criança. Meus olhos ainda não se acostumaram com a escuridão. Leva um tempo. A janela na cabana é muito pequena. Ficamos sentados. O nome dela é MARIA. Ela fica feliz quando sabe que eu também me chamo Maria. E vejo três canequinhas de ágata penduradas na parede. Peço para Ely dizer a ela que eu também tenho canecas que nem aquela. Ficamos mais um tempo e vamos embora.
Agora posso dizer que conheço Masaai´s de verdade. 
E é mais uma lição de vida.
Como valeu a pena!!!
ALEGRIAS!!




















Um comentário:

Ivan Porccino disse...

Sônia, que leve ficou seu texto. Muito bom! Aprendi muito, obrigado por me levar por uns instantes para a Boma com vc.